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<title>Catarino&#x27;s FotoPage - Dizem que uma imagem vale por mil palavras... Mas que mil palavras poderiam ser essas? E assim tornei-me um ca&#xE7;ador de palavras. - Fotopages.com</title>
<link>http://amcatarino.fotopages.com/</link>
<description>Gender: Male

Born April 13th 1973</description>
<pubDate>Sat, 05 Jul 2008 15:58:12 GMT</pubDate>
<lastBuildDate>Sat, 05 Jul 2008 15:58:12 GMT</lastBuildDate>

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<title></title>
<description>Hi. I decided to put an end to my journey in fotopages. I&#x27;ll keep up with the fotopages of all my fotopage friends, and invite all of you to continue to see my fotos at the adress http://www.olhares.com/amcatarino.

Para aqueles que gostavam de ler os textos que acompanhavam as fotos convido a visitar-me no endere&#xE7;o http://amcatarino.blogspot.com.

See you all. ;-) </description>
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<pubDate>Wed, 15 Jun 2005 00:00:00 GMT</pubDate>
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<title>Hist&#xF3;rias de &#xE1;gua doce</title>
<description>Pingo a pingo, gota a gota&#x2026; emancipada da nascente m&#xE3;e, destino endossado ao grande oceano sem nome, ela l&#xE1; vai.

&#xC1;gua que corre &#x2013; &#xE1;gua corrente, abra&#xE7;ando a terra&#x2026; corrente inquebr&#xE1;vel, circuito fechado de &#xE1;guas sagradas, que antes de o ser j&#xE1; o eram.

Liquida, s&#xF3;lida, gasosa &#x2013; n&#xE3;o cessas de me surpreender&#x2026;

&#xC1;gua corrente &#x2013; corres contra um sem n&#xFA;mero de competidores&#x2026; Qual o teu fito?

Para onde correis v&#xF3;s, rios, regatos e ribeirinhos?

Qual &#xE9; o pr&#xE9;mio reservado ao vencedor?

Onde est&#xE1; a tua voz, &#xE1;gua doce, doce &#xE1;gua?

Procuras o sal da vida? Almejas ser a &#xE1;gua salgada que sacrifica a inocente do&#xE7;ura &#xE0; vol&#xFA;pia da salinidade?

Sabes que o caminho &#xE9; longo, as aventuras prometem ser muitas&#x2026;

Mil e uma hist&#xF3;rias correm a par dos teus cursos, colorindo de todas as cores tua maravilhosa jornada.

Pingo a pingo, gota a gota&#x2026; infinitas l&#xE1;grimas que jorram do ventre duma terra em convuls&#xE3;o.

Por isso, cuidado&#x2026; muitas cautelas!

&#x201C;O sinal est&#xE1; vermelho debaixo de todas as pontes!&#x201D; &#x2013; Avisa o fantasma das &#xE1;guas passadas.</description>
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<pubDate>Tue, 31 May 2005 00:00:00 GMT</pubDate>
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<title>Renasceres</title>
<description>Era uma vez uma crian&#xE7;a, que solitariamente percorria um caminho de terra batida, por entre &#xE1;rvores e montes. Mas comecemos por ouvir o adulto que a seguia e interceptou com uma sauda&#xE7;&#xE3;o sabendo a provoca&#xE7;&#xE3;o:

&#x2013; Ol&#xE1; piolho!

&#x2013; Pai!!! &#x2013; Gritou a crian&#xE7;a, correndo para tr&#xE1;s.

&#x2013; Agora deixam-te afastar de casa assim tanto sozinho? &#x2013; Questionou o adulto aconchegando a crian&#xE7;a num afago que a encobriu completamente.

&#x2013; N&#xE3;o disse a ningu&#xE9;m que vinha para aqui. Pai&#x2026; &#x2013; E a crian&#xE7;a libertou-se do abra&#xE7;o, como que para ter a certeza de quem a abra&#xE7;ava, como que para confirmar que aquilo estava mesmo a acontecer. &#x2013; Eu n&#xE3;o acredito! Deixa-me ir chamar a m&#xE3;e&#x2026; Quando ela te vir!&#x2026; &#x2013; E a crian&#xE7;a fez men&#xE7;&#xE3;o de tomar o sentido inverso ao que vinha tomando.

&#x2013; N&#xE3;o filho, a tua m&#xE3;e n&#xE3;o me pode ver. &#x2013; Segurou-a pelo bra&#xE7;o o adulto. &#x2013; Al&#xE9;m disso n&#xE3;o temos muito tempo. Anda c&#xE1; e conta-me o que tens feito. &#x2013; E o adulto come&#xE7;ou a andar, prosseguindo o caminho que a crian&#xE7;a vinha fazendo.

&#x2013; Tenho tanta coisa para te contar&#x2026;&#x2013; Conformou-se a crian&#xE7;a, seguindo o adulto. &#x2013; N&#xE3;o te vejo h&#xE1; tanto tempo&#x2026; Pensei mesmo que nunca mais te voltava a ver.

&#x2013; Shhh&#x2026; &#x2013; O adulto voltou a estreitar a crian&#xE7;a contra si. &#x2013; Ent&#xE3;o? O que tens feito?

&#x2013; Agora ando numa escola com muitos meninos! &#x2013; Anunciou entusiasmada a crian&#xE7;a.

&#x2013; Ai sim? E o que fazes nessa escola? &#x2013; Sorriu o adulto.

&#x2013; Fa&#xE7;o desenhos, jogo jogos e brinco com os outros meninos. &#x2013; Explicou a crian&#xE7;a.

&#x2013; E gostas dos outros meninos? &#x2013; Interrogou o adulto.

&#x2013; Gosto. Quer dizer&#x2026; gosto mais duns do que doutros&#x2026;

E a crian&#xE7;a come&#xE7;ou a desfiar tudo o que lhe pareceu digno da aten&#xE7;&#xE3;o do pai h&#xE1; tanto tempo ausente, tudo naquele tom maravilhosamente colorido pela crua e perversa inoc&#xEA;ncia das crian&#xE7;as. O caminho encheu-se de hist&#xF3;rias alegremente palradas pela voz do filho que eu nunca tive.

&#x2013; Muito me contas!&#x2026; &#x2013; Observou o adulto,quando a crian&#xE7;a se calou. &#x2013; Ent&#xE3;o e continuas a vir passear para aqui, por onde n&#xF3;s nunca nos cans&#xE1;vamos de passear?

&#x2013; Sim. Quando estou aqui parece que estou mais perto de ti.

&#x2013; &#xC9; um s&#xED;tio muito bonito, n&#xE3;o achas? 

&#x2013; Acho. &#xC9; o s&#xED;tio mais lindo do mundo. E hoje est&#xE1; mais bonito que nunca&#x2026; porque tu est&#xE1;s aqui.

&#x2013; Tamb&#xE9;m nunca me pareceu t&#xE3;o bonito como hoje. &#x2013; Sorriu enternecido o adulto. &#x2013; Apesar de ainda n&#xE3;o estar tal e qual era antes. Lembras-te do ano do fogo? &#x2013; A crian&#xE7;a acenou afirmativamente. &#x2013; O fogo veio e levou-nos o verde da paisagem. Repara como a natureza se regenera. Ainda n&#xE3;o h&#xE1; muito tempo o fogo galopou por estes vales fora, destruindo tudo o que encontrava pelo caminho. O monstro devora, mas nunca consegue dar a estocada final. O segredo &#xE9; saber olhar e aprender tudo o que abarca esse olhar. Assim, o fogo mascarrou tudo de negro, mas ao mesmo tempo semeou as cinzas do que antes fora a vida, espalhando-as por esse mundo fora, segundo os caprichos do vento. Das cinzas n&#xE3;o emerge apenas a desola&#xE7;&#xE3;o, fermenta tamb&#xE9;m o renascimento. Das sombras vem a luz. Bot&#xF5;es em flor voltaram a brotar dos ramos outrora enegrecidos das &#xE1;rvores, contendo no seu &#xE2;mago a promessa de folhas e frutos, reconciliando este lugar com a vida. Os p&#xE1;ssaros voltaram a entoar as suas serenatas de amor sobre os ramos dessas mesmas &#xE1;rvores. Se nos sentarmos quietinhos &#xE0; sombra daquela oliveira, e prestarmos aten&#xE7;&#xE3;o, veremos todo o tipo de animaizinhos que namoram &#xE0; sombra da mem&#xF3;ria de tempos mais in&#xF3;spitos e infelizes&#x2026; Depois dum longo Inverno, desponta sempre a primavera. Observa como a como a natureza se regenera&#x2026; &#x201C;Nada se perde, tudo se transforma&#x201D;, j&#xE1; dizia Lavoisier. &#xC9; essa a hist&#xF3;ria da alma das coisas&#x2026; e das pessoas.

&#x2013; Pai&#x2026; O que &#xE9; que isso quer dizer?

&#x2013; Um dia vais compreender, prometo-te. Ora repara&#x2026; Come&#xE7;a a escurecer. &#xC9; hora de regressar. E tu tamb&#xE9;m j&#xE1; devias estar em casa. A tua m&#xE3;e deve estar preocupada.

&#x2013; Mas&#x2026; Pai?&#x2026;

&#x2013; Sim?&#x2026;

&#x2013; Alguma vez vais voltar l&#xE1; desse s&#xED;tio muito longe aonde a m&#xE3;e diz que eu n&#xE3;o te posso visitar?

&#x2013; N&#xE3;o, filho, n&#xE3;o posso&#x2026;

&#x2013; Mas, pai&#x2026;Eu tenho saudades tuas! &#x2013; E o rebento tentou reabra&#xE7;ar o pai, que j&#xE1; n&#xE3;o estava l&#xE1;.

&#x2013; &#x2026;mas hei-de continuar a visitar-te. Pelo menos enquanto o teu cora&#xE7;&#xE3;o continuar a ter capacidade para me ouvir.</description>
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<pubDate>Sun, 29 May 2005 00:00:00 GMT</pubDate>
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<title>Diagonais</title>
<description>Psst! Psst! Sim, tu a&#xED;. Ouve-me, vou contar-te um segredo&#x2026; As diagonais perseguem-me. Para onde quer que eu olhe, vejo-as! N&#xE3;o compreendo porque me tomaram de ponta&#x2026; Eu nunca lhes fiz nada de mal. Espera! Por favor, n&#xE3;o te v&#xE1;s embora! Tu &#xE9;s a minha &#xFA;ltima esperan&#xE7;a. Ouve&#x2026; Ouve&#x2026; Acaso n&#xE3;o reparaste como o mundo mudou nos &#xFA;ltimos anos? N&#xE3;o observas como a vida dos homens tem cada vez menos sentido? N&#xE3;o te parece que a humanidade caminha a passos largos para a sua pr&#xF3;pria auto-imola&#xE7;&#xE3;o? N&#xE3;o sentes como o clima mudou, como o ambiente se degradou? Eu sei que o discurso oficial &#xE9; a hist&#xF3;ria do buraco de ozono, o que em certa medida n&#xE3;o &#xE9; mentira. Mas a situa&#xE7;&#xE3;o &#xE9; bem mais complicada do que aquilo que aparenta. Eu vou contar-te a verdade. Mas tens de prometer que me vais ouvir de cabe&#xE7;a aberta!&#x2026; A explica&#xE7;&#xE3;o para o desgoverno crescente do rumo da humanidade, foi a chegada de uma perigosa e poderosa ra&#xE7;a alien&#xED;gena &#xE0; Terra durante a fase final do s&#xE9;culo XX. Vieram para ocupar o nosso planeta, mas t&#xEA;m tempo e n&#xE3;o est&#xE3;o para se cansar muito. O m&#xE9;todo &#xE9; simples: intensificaram o ritmo de evolu&#xE7;&#xE3;o da ra&#xE7;a humana, acelerando o seu fim. Sim, porque o homem falhou todos os testes a que as grandes entidades c&#xF3;smicas os submeteram. O homem condenou-se a si pr&#xF3;prio, a humanidade cada vez revela menos aptid&#xE3;o para ser humana. Este fim era inevit&#xE1;vel, mas nunca t&#xE3;o abruptamente como agora se avizinha! J&#xE1; te falei do m&#xE9;todo, agora vou contar-te qu&#xE3;o simples e terr&#xED;ficos s&#xE3;o os meios dos ET&#x2019;s: eles limitam-se a propagar as diagonais por toda a nossa volta! Julgo que a raz&#xE3;o &#xE9; a seguinte: eles n&#xE3;o t&#xEA;m uma presen&#xE7;a f&#xED;sica num corpo vivo como n&#xF3;s. Eles s&#xE3;o uma mera forma de energia, mas precisam dum hospedeiro, n&#xE3;o dum hospedeiro vivo, algo que os possa albergar de tempos a tempos, para retemperarem for&#xE7;as, para recarregarem as baterias. As &#xE1;rvores, por exemplo, n&#xE3;o servem. Pouco importa a &#x201C;coisa&#x201D; onde se ocultam enquanto n&#xE3;o est&#xE3;o a acelerar a hist&#xF3;ria da humanidade. N&#xE3;o interessa o material de que &#xE9; feito, mas tem de obedecer a dois pr&#xE9;-requisitos fundamentais: primeiro tem obrigatoriamente de ser inanimado e segundo deve impreterivelmente desenhar uma diagonal. N&#xE3;o me perguntes porqu&#xEA;, n&#xE3;o fa&#xE7;o a m&#xED;nima ideia. S&#xF3; sei que eles se escondem nas diagonais. Tamb&#xE9;m n&#xE3;o sei porque sou o &#xFA;nico homem &#xE0; face da terra capaz de os desmascarar, mas digo-te que esta n&#xE3;o &#xE9; uma b&#xEA;n&#xE7;&#xE3;o&#x2026; Eu chamar-lhe-ia antes uma maldi&#xE7;&#xE3;o, pois agora elas, as diagonais, andam atr&#xE1;s de mim. N&#xE3;o descansar&#xE3;o enquanto n&#xE3;o me encostarem a uma parede e n&#xE3;o me aniquilarem. N&#xE3;o reparas como as diagonais ganham cada vez maior protagonismo no design de todo e qualquer produto? Sapatos, carros, monumentos&#x2026; J&#xE1; vi aliens em saltos altos de sapatos de senhora. J&#xE1; vi aliens em portas de carros desportivos. J&#xE1; vi aliens em monumentos modernos, que ironicamente celebram o iminente fim da humanidade&#x2026; Meu Deus! Eu j&#xE1; vi aliens um pouco por todo o lado! E se eu te contasse o aspecto&#x2026; N&#xE3;o queiras saber como &#xE9; monstruosa e imaterial a presen&#xE7;a deles&#x2026; Espera? Que barulho foi este? Eis-los que apertam o cerco! N&#xE3;o posso falar muito mais. Se me acontecer alguma coisa entretanto, tu ser&#xE1;s a &#xFA;nica pessoa a saber o que aconteceu realmente. Se me acontecer alguma coisa, digamos que, por exemplo, um acidente inesperado, n&#xE3;o te cales! Tu &#xE9;s a &#xFA;nica pessoa que sabe a verdade: as diagonais est&#xE3;o prestes a conquistar o mundo. Confio em ti. N&#xE3;o me deixes ficar mal. O futuro da humanidade repousa nas tuas m&#xE3;os.</description>
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<pubDate>Tue, 24 May 2005 00:00:00 GMT</pubDate>
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<item>
<title>Retrato</title>
<description>Voltei a moldura de face para baixo na mesa de cabeceira do meu quarto. Esta &#xE9; uma foto que eu n&#xE3;o quero voltar a ver t&#xE3;o cedo. &#xC9; aquela foto que pedimos a um turista alem&#xE3;o para nos tirar em Almograve. Lembras-te? Coitado do homem, n&#xE3;o percebeu uma palavra do que lhe dissemos. O que vale &#xE9; que certas linguagens s&#xE3;o universais, e ele percebeu exactamente o que n&#xF3;s quer&#xED;amos&#x2026; o que quer&#xED;amos um do outro&#x2026; e o que quer&#xED;amos dele naquele momento.

Lembras-te?

Ah! Desculpa&#x2026; Esqueci-me que j&#xE1; n&#xE3;o est&#xE1;s aqui. Pe&#xE7;o imensa desculpa. Esqueci-me completamente que hoje eu para ti sou passado. A minha voz j&#xE1; n&#xE3;o te diz nada. Pergunto-me se me reconhecerias a voz, se a ouvisses do outro lado duma chamada telef&#xF3;nica fortuita, daquelas em que ningu&#xE9;m fala do outro lado e o telefone se desliga por fim com um baque surdo, agu&#xE7;ando a curiosidade mas selando uma carta in&#xFA;til sem remetente ou destinat&#xE1;rio.

Nunca mais tiro uma foto em que n&#xE3;o esteja sozinho!

Sinto-me tentado a levantar a moldura. Custa-me a acreditar que tu ainda estejas l&#xE1;. Custa-me a acreditar que aquela tarde tenha acontecido efectivamente da forma como a recordo. &#xC9; dif&#xED;cil n&#xE3;o ver o passado sem as cores do presente, e as cores que eu vejo hoje, t&#xEA;m muito pouco a ver com as daquela tarde&#x2026;

Estou quase, quase a levantar a moldura&#x2026;

E se tu tiveres desaparecido da foto? E se tu tiveres partido a explorar os rochedos da praia, deixando-me sozinho no enquadramento vazio de n&#xF3;s? O meu receio &#xE9; o de que eu n&#xE3;o tenha podido permanecer tamb&#xE9;m dentro da fotografia. Que ficava eu a fazer sozinho posando para o turista alem&#xE3;o? E se eu n&#xE3;o me encontrar na foto tamb&#xE9;m?

Imagino o p&#xE2;nico que n&#xE3;o seria. Afinal, e apesar de tudo, acho que sempre acreditei que existiria vida para al&#xE9;m de ti.

Imagino-me a procurar aflitivamente o envelope com as outras duas fotos que o turista alem&#xE3;o nos tirou naquela tarde. Est&#xE1; perdido algures no meio dos pap&#xE9;is da primeira gaveta da mesma mesinha de cabeceira de onde n&#xF3;s nos evadimos pela calada duma noite sem sonhos.

E se eu, em desespero de causa, desenterrasse de debaixo da minha cama o caixote com todas as nossas fotos e n&#xE3;o nos encontrar em nenhuma? Mas pior, muito pior&#x2026; Se eu fosse vasculhar os &#xE1;lbuns com as minhas fotos de crian&#xE7;a, e os encontrasse desoladamente vazios de mim? Aonde antes a minha m&#xE3;e me segurava carinhosamente ao colo, restaria apenas uma pose de incompleta maternidade. Na foto do meu primeiro anivers&#xE1;rio ver-se-ia apenas o bolo com uma &#xFA;nica vela ao centro, sem qualquer pista acerca do hipot&#xE9;tico aniversariante. E da&#xED; por diante&#x2026; Como se a minha vida por perder sentido, perdesse tamb&#xE9;m toda a realidade.

Quem sabe? Quem sabe&#x2026;

Um dia eu vou voltar a levantar esta moldura. E tu n&#xE3;o vais estar l&#xE1;. Se calhar n&#xE3;o vai estar l&#xE1; ningu&#xE9;m. Ou talvez sim, talvez esteja&#x2026; Dizem que n&#xE3;o h&#xE1; como o tempo para nos lamber as feridas, mesmo as mais dif&#xED;ceis de cicatrizar&#x2026; Quem sabe se, quando eu devolver o meu olhar a esta moldura, n&#xE3;o encontre j&#xE1; outro rosto no lugar do teu&#x2026; e me reencontre a mim tamb&#xE9;m.</description>
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<pubDate>Sat, 21 May 2005 00:00:00 GMT</pubDate>
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<item>
<title>3 horas</title>
<description>A hora j&#xE1; deve ter mudado. As horas s&#xE3;o uma coisa perfeitamente desconcertante. O maior anseio da hora passada, parece-me a mais vil das ninharias na hora seguinte. As horas mudam e mudam a vida dos homens, mudando, de caminho, os pr&#xF3;prios homens.

Que horas s&#xE3;o?

Este &#xE9; o grande inconveniente do ex&#xED;lio de todos os rel&#xF3;gios &#x2013; fico sempre sem saber qual &#xE9; a hora.

Envergonho-me dos meus rel&#xF3;gios &#x2013; deixam-me ficar mal sempre que t&#xEA;m oportunidade. N&#xE3;o foi para isso que os escolhi. Escolhi-os para me servirem de int&#xE9;rpretes no decifrar dessa l&#xED;ngua c&#xF3;smica que &#xE9; o tempo. Contratei-os (reparem bem: contratei-os, n&#xE3;o os comprei) para serem os meus intermedi&#xE1;rios junto dessa engrenagem maior que &#xE9; todo o universo.

&#xC9; por isso que deixei de os usar. Tenho uma infind&#xE1;vel colec&#xE7;&#xE3;o de rel&#xF3;gios, todos fechados numa gaveta da minha mesinha de cabeceira.

Mas para qu&#xEA; preocupar-me com as horas?

As horas s&#xE3;o civiliza&#xE7;&#xF5;es em guerra, que come&#xE7;am e acabam perfeitamente sincronizadas com os acasos e coincid&#xEA;ncias nos quais muitos teimam em ver o destino. 

Para qu&#xEA; falar duma hora, quando um mero segundo basta para mudar irreversivelmente o resto da minha vida?

As potencialidades de um segundo s&#xE3;o infinitas. Posso fazer praticamente tudo de um segundo&#x2026; ou um segundo pode fazer de mim praticamente tudo o que quiser. Um segundo pode ser a diferen&#xE7;a entre a gl&#xF3;ria e o fracasso, um segundo pode ser tudo o que separa a virtude do pecado, a &#xFA;ltima fronteira entre a sanidade e a loucura.

Os segundos s&#xE3;o os soldados do tempo, marchando (um, dois, tr&#xEA;s, esquerdo, direito, um, dois, tr&#xEA;s, esquerdo, direito) contra os fatais canh&#xF5;es da engrenagem sem fim.

Basta um segundo para deitar a perder toda a vida de um homem. Sessenta movimentos do ponteiro chegam para fechar um minuto, mas sessenta mil vidas podem ser condenadas sem remiss&#xE3;o dentro de um &#xFA;nico segundo.

Os minutos s&#xE3;o os abutres do tempo &#x2013; limpam os ossos &#xE0;s decis&#xF5;es passadas, expondo-as ao julgamento dos dias, semanas, meses, anos, d&#xE9;cadas &#x2013; sem regresso, apesar de ainda virem long&#xED;nquas.

Sessenta vezes bate o rel&#xF3;gio, e eu &#xE0; espera &#x2026; Este jogo est&#xE1; viciado. Ningu&#xE9;m pode jogar eternamente contra si pr&#xF3;prio. Mais tarde ou mais cedo um de mim ter&#xE1; de vencer.

O passado torna-se no meu futuro. O presente corre atr&#xE1;s de mim&#x2026; mas leva-me uma volta de avan&#xE7;o.

Manh&#xE3;, tarde, anoitecer.

E a noite arde-me indulgentemente na alma&#x2026; o farol crepuscular que encerra a promessa de ainda novos e terr&#xED;veis naufr&#xE1;gios. S.O.S. S.O.S.

Este &#xE9; o caminho? Ningu&#xE9;m me responde. Na verdade o tempo n&#xE3;o tem voz &#x2013; o tempo fala, mas n&#xE3;o tem voz. Mas os locutores de r&#xE1;dio t&#xEA;m voz. Ou&#xE7;o-a do carro que, descuidadamente, deixei a trabalhar. E declaram um cessar-fogo unilateral aos meus v&#xE3;os pensamentos:

&#x2013; S&#xE3;o tr&#xEA;s horas da tarde em Portugal continental.

3 horas, 3 dias, 3 homens. Quantas vidas pelo meio?</description>
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<pubDate>Wed, 18 May 2005 00:00:00 GMT</pubDate>
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<item>
<title>Argumento</title>
<description>Estou doente. Sinto-me miseravelmente mal. As minhas costas continuam a dar cabo de mim. Raios partam! Acho que n&#xE3;o consigo subir o resto do caminho. M&#xE1; ideia. Este n&#xE3;o &#xE9; um bom dia para passeios.

&#xC9; raro eu ficar doente, mas quando fico&#x2026; fico mesmo.

Estar doente tem para mim um estranho sabor a &#x2026; realidade.

&#xC9; nestas alturas que concluo que s&#xF3; a dor &#xE9; verdadeiramente real.

Quando estou doente vejo-me inevitavelmente &#xE0; luz da minha condi&#xE7;&#xE3;o de mero mortal, e tudo em volta de mim se recobre de sombras. A dor tem o estranho cond&#xE3;o de nos confrontar com a nossa mortalidade. H&#xE1; alturas em que sinceramente me custa a acreditar que um dia, mais cedo ou mais tarde, eu vou mesmo ter de morrer. Alturas em que penso para comigo &#x201C;Como &#xE9; poss&#xED;vel eu n&#xE3;o ser imortal?&#x201D;

Nada disto sucede quando estou na plenitude e m&#xE1;ximo vigor das minhas capacidades. Saud&#xE1;vel, nada disso me perturba. Limito-me a seguir o meu caminho. Um passo a seguir ao outro, tranquilamente, sem preocupa&#xE7;&#xF5;es. Quero l&#xE1; saber se isto ou aquilo me vai fazer mal ou n&#xE3;o! Vivo como que num conto de fadas, independentemente de ainda n&#xE3;o ter chegado &#xE0; parte onde dizem &#x201C;&#x2026;e viveram felizes para sempre.&#x201D; Sim, que os contos de fada, apesar de terminarem, nunca t&#xEA;m realmente fim.

Nos contos de fadas, as ru&#xED;nas de hoje s&#xE3;o o castelo encantado de amanh&#xE3;. Nada &#xE9; imposs&#xED;vel num conto de fadas.

Este &#xE9; o fundamento da minha peti&#xE7;&#xE3;o. Acho que n&#xE3;o &#xE9; demais pedir uma vida sem sobressaltos. Quem n&#xE3;o desejaria viver num conto de fadas ainda em processo de escrita? Sa&#xFA;de &#xE9; tudo o que pe&#xE7;o para j&#xE1;, pois tudo o resto vir&#xE1; por acr&#xE9;scimo &#x2013; nos contos de fadas tudo vem por acr&#xE9;scimo.

E com isto encerro o meu caso, merit&#xED;ssimo juiz.</description>
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<pubDate>Sat, 14 May 2005 00:00:00 GMT</pubDate>
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<title>Moinhos de vento Sec. XXI</title>
<description>Romaria dominical aos moinhos e&#xF3;licos em constru&#xE7;&#xE3;o na Serra dos Candeeiros. O portugu&#xEA;s &#xE9; naturalmente curioso. &#xC0; falta dum bom acidente de carro ou qualquer outra trag&#xE9;dia local de trazer por casa, esquece o h&#xE1;bito de ir ver o mar e ruma &#xE0; serra para ver de perto os tais moinhos. De qualquer forma tamb&#xE9;m j&#xE1; l&#xE1; morreram esmagados alguns oper&#xE1;rios alem&#xE3;es que andavam a montar as estruturas. O portugu&#xEA;s &#xE9; morbidamente curioso. Portanto, ala que se faz tarde.

Que brilharete quando contar aos amigos &#x201C;Eh p&#xE1;, estive l&#xE1; mesmo ao p&#xE9;. Aquilo tem 87 metros de altura. Havias de ver. As h&#xE9;lices s&#xE3;o maiores que as asas dum avi&#xE3;o! Nem queiras saber! Eu ainda disse &#xE0; minha mulher que aquilo era para testar as asas dos avi&#xF5;es antes de serem postas nos aparelhos. E ela acreditou! Fart&#xE1;mo-nos de rir. Tens que l&#xE1; ir! Aquilo s&#xF3; visto.&#x201D;

E os moinhos l&#xE1; est&#xE3;o &#x2013; imp&#xE1;vidos e serenos.

Se Dom Quixote vivesse hoje, que diria de t&#xE3;o amea&#xE7;adores gigantes? &#x201C;N&#xE3;o v&#xEA;s ali Sancho, uma coluna de monstros prateados? Este &#xE9; um feito &#xE0; minha altura!&#x201D; E arremataria, esporeando o j&#xE1; cansado Rocinante.

Que resultaria de tamanha batalha?

No fundo, n&#xE3;o acredito que o engenhoso fidalgo da mancha n&#xE3;o visse os moinhos. Para mim, era apenas demasiado tentador n&#xE3;o ver os monstros. E havia a curiosidade, que n&#xE3;o &#xE9; uma patente lusitana.

Ali&#xE1;s, todos n&#xF3;s temos um pouco de cavaleiro da triste figura.

O monstro devora-nos a curiosidade.

Ou ent&#xE3;o o monstro &#xE9; a pr&#xF3;pria curiosidade, que se vai alimentando da nossa alma.

Hmmm!&#x2026;

Digo eu.</description>
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<pubDate>Sat, 07 May 2005 00:00:00 GMT</pubDate>
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<title>Rememorizando</title>
<description>&#x201C;Nunca voltes aos lugares onde foste feliz um dia&#x201D; n&#xE3;o sei quem disse esta frase, nem em que circunst&#xE2;ncias, mas sinto-a hoje como nunca a senti &#x2013; est&#xE1;-me no sangue, que a deixa marcada por toda a parte (vai-a deixando escrita pelas minhas veias &#xE0; medida que vai passando, como um grafitti que ningu&#xE9;m consegue evitar de ler numa parede), tatua-a mil vezes no meu cora&#xE7;&#xE3;o a cada nova passagem at&#xE9; da mais insignificante das got&#xED;culas da seiva da vida, abrindo caminho, com uma promessa do regresso que nunca foi.

Todavia, eu c&#xE1; estou outra vez &#x2013; mais uma vez. Nunca aqui estive, mas juraria que n&#xF3;s j&#xE1; c&#xE1; estivemos. Sobra muito pouco daquele dia, que talvez nem tenha sido um dia (que talvez at&#xE9; tenha sido uma noite), um dia ou uma noite, que n&#xE3;o foi ontem, n&#xE3;o &#xE9; hoje, n&#xE3;o &#xE9; amanh&#xE3;. Restam apenas os rodados do carro, que j&#xE1; n&#xE3;o s&#xE3;o do mesmo carro, que j&#xE1; n&#xE3;o s&#xE3;o do meu carro, que j&#xE1; n&#xE3;o s&#xE3;o do teu carro &#x2013; eu era ele, tu eras ela, s&#xF3; que ele era outro, tu eras outra tamb&#xE9;m, j&#xE1; n&#xE3;o sei se fomos n&#xF3;s que fomos felizes aqui, talvez tenham sido outros quaisquers, depois partiram e deixaram-nos a cada um de n&#xF3;s fechado dentro do seu pr&#xF3;prio mundo.

Reescritas as mem&#xF3;rias, rememorizado o passado, fica-me um sabor amargo na boca &#x2013; talvez ao sabor estranho de um beijo teu.</description>
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<pubDate>Thu, 05 May 2005 00:00:00 GMT</pubDate>
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<title>Aconteceu</title>
<description>Fim de semana no meio do nada. A herdade ficava distante de tudo e de todos. Os telem&#xF3;veis n&#xE3;o tinham rede, a electricidade era poss&#xED;vel apenas gra&#xE7;as &#xE0; energia solar. O sossego era tanto que o ritmo biol&#xF3;gico parecia acompanhar em sintonia perfeita o ritmo da natureza&#x2026; tal como devia ser sempre. Esperei que todos se deitassem para tirar algumas fotos nocturnas. A noite j&#xE1; ia longa, mas descobria-me surpreendentemente fresco e inspirado. 

Experimentei diversos enquadramentos e perspectivas, sempre com o cuidado de n&#xE3;o me afastar muito da casa. Afinal encontrava-me em terra estranha e, apesar da lua cheia que enchia o mundo duma fosforesc&#xEA;ncia azul, n&#xE3;o seria preciso muito para me perder nalgum carreiro ou caminho mais desviado.

Enquanto aguardava que a m&#xE1;quina fotogr&#xE1;fica fizesse da noite dia, sentei-me no ch&#xE3;o, e deixei-me invadir pela paz e serenidade envolventes.

Fechei os olhos.

Sentia-me longe de tudo, sentia-me at&#xE9; longe de mim pr&#xF3;prio &#x2013; a minha vida pareceu-me subitamente uma coisa insolitamente estranha e vagamente distante, &#xE0; qual n&#xE3;o me apetecia regressar. &#xC0; minha volta sentia apenas o chilrear dos p&#xE1;ssaros e outros ru&#xED;dos mal definidos. Esvaziara-me de mim mesmo, e sentia-me bem. Deixei que a noite entrasse por mim adentro. Isolei o canto de cada um dos p&#xE1;ssaros. A minha mente viajou por todos os ramos das &#xE1;rvores em volta, localizando-os um a um, como o mais perfeito e infal&#xED;vel dos radares. N&#xE3;o posso dizer de que esp&#xE9;cie eram, n&#xE3;o sei quais as suas cores ou de que tamanho eram os seus bicos, mas sabia exactamente onde estava cada um deles. E ent&#xE3;o voltei-me para um misterioso murm&#xFA;rio quase inaud&#xED;vel&#x2026; H&#xE1; muito que o tinha detectado, embora n&#xE3;o o conseguisse identificar. O que poderia ser aquilo? N&#xE3;o era o crepitar da fogueira &#xE0; frente da casa. Essa estava demasiado longe&#x2026; Seria um animal a rastejar? N&#xE3;o, o som era demasiado cont&#xED;nuo e sem grandes flutua&#xE7;&#xF5;es. Parecia&#x2026; Ah! Exactamente, era um fiozinho de &#xE1;gua a correr n&#xE3;o muito longe dali. Devia ser um qualquer ribeiro ou regato n&#xE3;o muito afastado dali. Agora eu sabia onde se situava tudo em meu redor&#x2026; Fazia parte daquela paz e serenidade primordiais. Era livre e feliz como nunca imaginara que se poderia ser. A minha vida parecia ter ficado irremediavelmente para tr&#xE1;s&#x2026; por um instante acreditei que jamais poderia regressar&#x2026; Algures por essa altura, acho eu, cheguei a ti&#x2026; embrulhada nos len&#xE7;&#xF3;is, jazendo sobre a cama, dentro do quarto mal iluminado pela claridade da lua e da fogueira que espreitava pela janela entreaberta&#x2026; e compreendi que tinha de voltar.

E foi ent&#xE3;o que abri os olhos.</description>
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<pubDate>Sat, 30 Apr 2005 00:00:00 GMT</pubDate>
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