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<title><![CDATA[Catarino's FotoPage - Dizem que uma imagem vale por mil palavras... Mas que mil palavras poderiam ser essas? E assim tornei-me um caçador de palavras. - Fotopages.com]]></title>
<link>http://amcatarino.fotopages.com/</link>
<description><![CDATA[Gender: Male

Born April 13th 1973]]></description>
<pubDate>Thu, 10 Dec 2009 06:37:02 GMT</pubDate>
<lastBuildDate>Thu, 10 Dec 2009 06:37:02 GMT</lastBuildDate>

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<title><![CDATA[]]></title>
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<title><![CDATA[]]></title>
<description><![CDATA[Hi. I decided to put an end to my journey in fotopages. I'll keep up with the fotopages of all my fotopage friends, and invite all of you to continue to see my fotos at the adress http://www.olhares.com/amcatarino.

Para aqueles que gostavam de ler os textos que acompanhavam as fotos convido a visitar-me no endereço http://amcatarino.blogspot.com.

See you all. ;-) ]]></description>
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<pubDate>Wed, 15 Jun 2005 00:00:00 GMT</pubDate>
</item>
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<title><![CDATA[Histórias de água doce]]></title>
<description><![CDATA[Pingo a pingo, gota a gota… emancipada da nascente mãe, destino endossado ao grande oceano sem nome, ela lá vai.

Água que corre – água corrente, abraçando a terra… corrente inquebrável, circuito fechado de águas sagradas, que antes de o ser já o eram.

Liquida, sólida, gasosa – não cessas de me surpreender…

Água corrente – corres contra um sem número de competidores… Qual o teu fito?

Para onde correis vós, rios, regatos e ribeirinhos?

Qual é o prémio reservado ao vencedor?

Onde está a tua voz, água doce, doce água?

Procuras o sal da vida? Almejas ser a água salgada que sacrifica a inocente doçura à volúpia da salinidade?

Sabes que o caminho é longo, as aventuras prometem ser muitas…

Mil e uma histórias correm a par dos teus cursos, colorindo de todas as cores tua maravilhosa jornada.

Pingo a pingo, gota a gota… infinitas lágrimas que jorram do ventre duma terra em convulsão.

Por isso, cuidado… muitas cautelas!

“O sinal está vermelho debaixo de todas as pontes!” – Avisa o fantasma das águas passadas.]]></description>
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<pubDate>Tue, 31 May 2005 00:00:00 GMT</pubDate>
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<title><![CDATA[Renasceres]]></title>
<description><![CDATA[Era uma vez uma criança, que solitariamente percorria um caminho de terra batida, por entre árvores e montes. Mas comecemos por ouvir o adulto que a seguia e interceptou com uma saudação sabendo a provocação:

– Olá piolho!

– Pai!!! – Gritou a criança, correndo para trás.

– Agora deixam-te afastar de casa assim tanto sozinho? – Questionou o adulto aconchegando a criança num afago que a encobriu completamente.

– Não disse a ninguém que vinha para aqui. Pai… – E a criança libertou-se do abraço, como que para ter a certeza de quem a abraçava, como que para confirmar que aquilo estava mesmo a acontecer. – Eu não acredito! Deixa-me ir chamar a mãe… Quando ela te vir!… – E a criança fez menção de tomar o sentido inverso ao que vinha tomando.

– Não filho, a tua mãe não me pode ver. – Segurou-a pelo braço o adulto. – Além disso não temos muito tempo. Anda cá e conta-me o que tens feito. – E o adulto começou a andar, prosseguindo o caminho que a criança vinha fazendo.

– Tenho tanta coisa para te contar…– Conformou-se a criança, seguindo o adulto. – Não te vejo há tanto tempo… Pensei mesmo que nunca mais te voltava a ver.

– Shhh… – O adulto voltou a estreitar a criança contra si. – Então? O que tens feito?

– Agora ando numa escola com muitos meninos! – Anunciou entusiasmada a criança.

– Ai sim? E o que fazes nessa escola? – Sorriu o adulto.

– Faço desenhos, jogo jogos e brinco com os outros meninos. – Explicou a criança.

– E gostas dos outros meninos? – Interrogou o adulto.

– Gosto. Quer dizer… gosto mais duns do que doutros…

E a criança começou a desfiar tudo o que lhe pareceu digno da atenção do pai há tanto tempo ausente, tudo naquele tom maravilhosamente colorido pela crua e perversa inocência das crianças. O caminho encheu-se de histórias alegremente palradas pela voz do filho que eu nunca tive.

– Muito me contas!… – Observou o adulto,quando a criança se calou. – Então e continuas a vir passear para aqui, por onde nós nunca nos cansávamos de passear?

– Sim. Quando estou aqui parece que estou mais perto de ti.

– É um sítio muito bonito, não achas? 

– Acho. É o sítio mais lindo do mundo. E hoje está mais bonito que nunca… porque tu estás aqui.

– Também nunca me pareceu tão bonito como hoje. – Sorriu enternecido o adulto. – Apesar de ainda não estar tal e qual era antes. Lembras-te do ano do fogo? – A criança acenou afirmativamente. – O fogo veio e levou-nos o verde da paisagem. Repara como a natureza se regenera. Ainda não há muito tempo o fogo galopou por estes vales fora, destruindo tudo o que encontrava pelo caminho. O monstro devora, mas nunca consegue dar a estocada final. O segredo é saber olhar e aprender tudo o que abarca esse olhar. Assim, o fogo mascarrou tudo de negro, mas ao mesmo tempo semeou as cinzas do que antes fora a vida, espalhando-as por esse mundo fora, segundo os caprichos do vento. Das cinzas não emerge apenas a desolação, fermenta também o renascimento. Das sombras vem a luz. Botões em flor voltaram a brotar dos ramos outrora enegrecidos das árvores, contendo no seu âmago a promessa de folhas e frutos, reconciliando este lugar com a vida. Os pássaros voltaram a entoar as suas serenatas de amor sobre os ramos dessas mesmas árvores. Se nos sentarmos quietinhos à sombra daquela oliveira, e prestarmos atenção, veremos todo o tipo de animaizinhos que namoram à sombra da memória de tempos mais inóspitos e infelizes… Depois dum longo Inverno, desponta sempre a primavera. Observa como a como a natureza se regenera… “Nada se perde, tudo se transforma”, já dizia Lavoisier. É essa a história da alma das coisas… e das pessoas.

– Pai… O que é que isso quer dizer?

– Um dia vais compreender, prometo-te. Ora repara… Começa a escurecer. É hora de regressar. E tu também já devias estar em casa. A tua mãe deve estar preocupada.

– Mas… Pai?…

– Sim?…

– Alguma vez vais voltar lá desse sítio muito longe aonde a mãe diz que eu não te posso visitar?

– Não, filho, não posso…

– Mas, pai…Eu tenho saudades tuas! – E o rebento tentou reabraçar o pai, que já não estava lá.

– …mas hei-de continuar a visitar-te. Pelo menos enquanto o teu coração continuar a ter capacidade para me ouvir.]]></description>
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<pubDate>Sun, 29 May 2005 00:00:00 GMT</pubDate>
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<title><![CDATA[Diagonais]]></title>
<description><![CDATA[Psst! Psst! Sim, tu aí. Ouve-me, vou contar-te um segredo… As diagonais perseguem-me. Para onde quer que eu olhe, vejo-as! Não compreendo porque me tomaram de ponta… Eu nunca lhes fiz nada de mal. Espera! Por favor, não te vás embora! Tu és a minha última esperança. Ouve… Ouve… Acaso não reparaste como o mundo mudou nos últimos anos? Não observas como a vida dos homens tem cada vez menos sentido? Não te parece que a humanidade caminha a passos largos para a sua própria auto-imolação? Não sentes como o clima mudou, como o ambiente se degradou? Eu sei que o discurso oficial é a história do buraco de ozono, o que em certa medida não é mentira. Mas a situação é bem mais complicada do que aquilo que aparenta. Eu vou contar-te a verdade. Mas tens de prometer que me vais ouvir de cabeça aberta!… A explicação para o desgoverno crescente do rumo da humanidade, foi a chegada de uma perigosa e poderosa raça alienígena à Terra durante a fase final do século XX. Vieram para ocupar o nosso planeta, mas têm tempo e não estão para se cansar muito. O método é simples: intensificaram o ritmo de evolução da raça humana, acelerando o seu fim. Sim, porque o homem falhou todos os testes a que as grandes entidades cósmicas os submeteram. O homem condenou-se a si próprio, a humanidade cada vez revela menos aptidão para ser humana. Este fim era inevitável, mas nunca tão abruptamente como agora se avizinha! Já te falei do método, agora vou contar-te quão simples e terríficos são os meios dos ET’s: eles limitam-se a propagar as diagonais por toda a nossa volta! Julgo que a razão é a seguinte: eles não têm uma presença física num corpo vivo como nós. Eles são uma mera forma de energia, mas precisam dum hospedeiro, não dum hospedeiro vivo, algo que os possa albergar de tempos a tempos, para retemperarem forças, para recarregarem as baterias. As árvores, por exemplo, não servem. Pouco importa a “coisa” onde se ocultam enquanto não estão a acelerar a história da humanidade. Não interessa o material de que é feito, mas tem de obedecer a dois pré-requisitos fundamentais: primeiro tem obrigatoriamente de ser inanimado e segundo deve impreterivelmente desenhar uma diagonal. Não me perguntes porquê, não faço a mínima ideia. Só sei que eles se escondem nas diagonais. Também não sei porque sou o único homem à face da terra capaz de os desmascarar, mas digo-te que esta não é uma bênção… Eu chamar-lhe-ia antes uma maldição, pois agora elas, as diagonais, andam atrás de mim. Não descansarão enquanto não me encostarem a uma parede e não me aniquilarem. Não reparas como as diagonais ganham cada vez maior protagonismo no design de todo e qualquer produto? Sapatos, carros, monumentos… Já vi aliens em saltos altos de sapatos de senhora. Já vi aliens em portas de carros desportivos. Já vi aliens em monumentos modernos, que ironicamente celebram o iminente fim da humanidade… Meu Deus! Eu já vi aliens um pouco por todo o lado! E se eu te contasse o aspecto… Não queiras saber como é monstruosa e imaterial a presença deles… Espera? Que barulho foi este? Eis-los que apertam o cerco! Não posso falar muito mais. Se me acontecer alguma coisa entretanto, tu serás a única pessoa a saber o que aconteceu realmente. Se me acontecer alguma coisa, digamos que, por exemplo, um acidente inesperado, não te cales! Tu és a única pessoa que sabe a verdade: as diagonais estão prestes a conquistar o mundo. Confio em ti. Não me deixes ficar mal. O futuro da humanidade repousa nas tuas mãos.]]></description>
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<pubDate>Tue, 24 May 2005 00:00:00 GMT</pubDate>
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<title><![CDATA[Retrato]]></title>
<description><![CDATA[Voltei a moldura de face para baixo na mesa de cabeceira do meu quarto. Esta é uma foto que eu não quero voltar a ver tão cedo. É aquela foto que pedimos a um turista alemão para nos tirar em Almograve. Lembras-te? Coitado do homem, não percebeu uma palavra do que lhe dissemos. O que vale é que certas linguagens são universais, e ele percebeu exactamente o que nós queríamos… o que queríamos um do outro… e o que queríamos dele naquele momento.

Lembras-te?

Ah! Desculpa… Esqueci-me que já não estás aqui. Peço imensa desculpa. Esqueci-me completamente que hoje eu para ti sou passado. A minha voz já não te diz nada. Pergunto-me se me reconhecerias a voz, se a ouvisses do outro lado duma chamada telefónica fortuita, daquelas em que ninguém fala do outro lado e o telefone se desliga por fim com um baque surdo, aguçando a curiosidade mas selando uma carta inútil sem remetente ou destinatário.

Nunca mais tiro uma foto em que não esteja sozinho!

Sinto-me tentado a levantar a moldura. Custa-me a acreditar que tu ainda estejas lá. Custa-me a acreditar que aquela tarde tenha acontecido efectivamente da forma como a recordo. É difícil não ver o passado sem as cores do presente, e as cores que eu vejo hoje, têm muito pouco a ver com as daquela tarde…

Estou quase, quase a levantar a moldura…

E se tu tiveres desaparecido da foto? E se tu tiveres partido a explorar os rochedos da praia, deixando-me sozinho no enquadramento vazio de nós? O meu receio é o de que eu não tenha podido permanecer também dentro da fotografia. Que ficava eu a fazer sozinho posando para o turista alemão? E se eu não me encontrar na foto também?

Imagino o pânico que não seria. Afinal, e apesar de tudo, acho que sempre acreditei que existiria vida para além de ti.

Imagino-me a procurar aflitivamente o envelope com as outras duas fotos que o turista alemão nos tirou naquela tarde. Está perdido algures no meio dos papéis da primeira gaveta da mesma mesinha de cabeceira de onde nós nos evadimos pela calada duma noite sem sonhos.

E se eu, em desespero de causa, desenterrasse de debaixo da minha cama o caixote com todas as nossas fotos e não nos encontrar em nenhuma? Mas pior, muito pior… Se eu fosse vasculhar os álbuns com as minhas fotos de criança, e os encontrasse desoladamente vazios de mim? Aonde antes a minha mãe me segurava carinhosamente ao colo, restaria apenas uma pose de incompleta maternidade. Na foto do meu primeiro aniversário ver-se-ia apenas o bolo com uma única vela ao centro, sem qualquer pista acerca do hipotético aniversariante. E daí por diante… Como se a minha vida por perder sentido, perdesse também toda a realidade.

Quem sabe? Quem sabe…

Um dia eu vou voltar a levantar esta moldura. E tu não vais estar lá. Se calhar não vai estar lá ninguém. Ou talvez sim, talvez esteja… Dizem que não há como o tempo para nos lamber as feridas, mesmo as mais difíceis de cicatrizar… Quem sabe se, quando eu devolver o meu olhar a esta moldura, não encontre já outro rosto no lugar do teu… e me reencontre a mim também.]]></description>
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<pubDate>Sat, 21 May 2005 00:00:00 GMT</pubDate>
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<title><![CDATA[3 horas]]></title>
<description><![CDATA[A hora já deve ter mudado. As horas são uma coisa perfeitamente desconcertante. O maior anseio da hora passada, parece-me a mais vil das ninharias na hora seguinte. As horas mudam e mudam a vida dos homens, mudando, de caminho, os próprios homens.

Que horas são?

Este é o grande inconveniente do exílio de todos os relógios – fico sempre sem saber qual é a hora.

Envergonho-me dos meus relógios – deixam-me ficar mal sempre que têm oportunidade. Não foi para isso que os escolhi. Escolhi-os para me servirem de intérpretes no decifrar dessa língua cósmica que é o tempo. Contratei-os (reparem bem: contratei-os, não os comprei) para serem os meus intermediários junto dessa engrenagem maior que é todo o universo.

É por isso que deixei de os usar. Tenho uma infindável colecção de relógios, todos fechados numa gaveta da minha mesinha de cabeceira.

Mas para quê preocupar-me com as horas?

As horas são civilizações em guerra, que começam e acabam perfeitamente sincronizadas com os acasos e coincidências nos quais muitos teimam em ver o destino. 

Para quê falar duma hora, quando um mero segundo basta para mudar irreversivelmente o resto da minha vida?

As potencialidades de um segundo são infinitas. Posso fazer praticamente tudo de um segundo… ou um segundo pode fazer de mim praticamente tudo o que quiser. Um segundo pode ser a diferença entre a glória e o fracasso, um segundo pode ser tudo o que separa a virtude do pecado, a última fronteira entre a sanidade e a loucura.

Os segundos são os soldados do tempo, marchando (um, dois, três, esquerdo, direito, um, dois, três, esquerdo, direito) contra os fatais canhões da engrenagem sem fim.

Basta um segundo para deitar a perder toda a vida de um homem. Sessenta movimentos do ponteiro chegam para fechar um minuto, mas sessenta mil vidas podem ser condenadas sem remissão dentro de um único segundo.

Os minutos são os abutres do tempo – limpam os ossos às decisões passadas, expondo-as ao julgamento dos dias, semanas, meses, anos, décadas – sem regresso, apesar de ainda virem longínquas.

Sessenta vezes bate o relógio, e eu à espera … Este jogo está viciado. Ninguém pode jogar eternamente contra si próprio. Mais tarde ou mais cedo um de mim terá de vencer.

O passado torna-se no meu futuro. O presente corre atrás de mim… mas leva-me uma volta de avanço.

Manhã, tarde, anoitecer.

E a noite arde-me indulgentemente na alma… o farol crepuscular que encerra a promessa de ainda novos e terríveis naufrágios. S.O.S. S.O.S.

Este é o caminho? Ninguém me responde. Na verdade o tempo não tem voz – o tempo fala, mas não tem voz. Mas os locutores de rádio têm voz. Ouço-a do carro que, descuidadamente, deixei a trabalhar. E declaram um cessar-fogo unilateral aos meus vãos pensamentos:

– São três horas da tarde em Portugal continental.

3 horas, 3 dias, 3 homens. Quantas vidas pelo meio?]]></description>
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<pubDate>Wed, 18 May 2005 00:00:00 GMT</pubDate>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Argumento]]></title>
<description><![CDATA[Estou doente. Sinto-me miseravelmente mal. As minhas costas continuam a dar cabo de mim. Raios partam! Acho que não consigo subir o resto do caminho. Má ideia. Este não é um bom dia para passeios.

É raro eu ficar doente, mas quando fico… fico mesmo.

Estar doente tem para mim um estranho sabor a … realidade.

É nestas alturas que concluo que só a dor é verdadeiramente real.

Quando estou doente vejo-me inevitavelmente à luz da minha condição de mero mortal, e tudo em volta de mim se recobre de sombras. A dor tem o estranho condão de nos confrontar com a nossa mortalidade. Há alturas em que sinceramente me custa a acreditar que um dia, mais cedo ou mais tarde, eu vou mesmo ter de morrer. Alturas em que penso para comigo “Como é possível eu não ser imortal?”

Nada disto sucede quando estou na plenitude e máximo vigor das minhas capacidades. Saudável, nada disso me perturba. Limito-me a seguir o meu caminho. Um passo a seguir ao outro, tranquilamente, sem preocupações. Quero lá saber se isto ou aquilo me vai fazer mal ou não! Vivo como que num conto de fadas, independentemente de ainda não ter chegado à parte onde dizem “…e viveram felizes para sempre.” Sim, que os contos de fada, apesar de terminarem, nunca têm realmente fim.

Nos contos de fadas, as ruínas de hoje são o castelo encantado de amanhã. Nada é impossível num conto de fadas.

Este é o fundamento da minha petição. Acho que não é demais pedir uma vida sem sobressaltos. Quem não desejaria viver num conto de fadas ainda em processo de escrita? Saúde é tudo o que peço para já, pois tudo o resto virá por acréscimo – nos contos de fadas tudo vem por acréscimo.

E com isto encerro o meu caso, meritíssimo juiz.]]></description>
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<pubDate>Sat, 14 May 2005 00:00:00 GMT</pubDate>
</item>
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<title><![CDATA[Moinhos de vento Sec. XXI]]></title>
<description><![CDATA[Romaria dominical aos moinhos eólicos em construção na Serra dos Candeeiros. O português é naturalmente curioso. À falta dum bom acidente de carro ou qualquer outra tragédia local de trazer por casa, esquece o hábito de ir ver o mar e ruma à serra para ver de perto os tais moinhos. De qualquer forma também já lá morreram esmagados alguns operários alemães que andavam a montar as estruturas. O português é morbidamente curioso. Portanto, ala que se faz tarde.

Que brilharete quando contar aos amigos “Eh pá, estive lá mesmo ao pé. Aquilo tem 87 metros de altura. Havias de ver. As hélices são maiores que as asas dum avião! Nem queiras saber! Eu ainda disse à minha mulher que aquilo era para testar as asas dos aviões antes de serem postas nos aparelhos. E ela acreditou! Fartámo-nos de rir. Tens que lá ir! Aquilo só visto.”

E os moinhos lá estão – impávidos e serenos.

Se Dom Quixote vivesse hoje, que diria de tão ameaçadores gigantes? “Não vês ali Sancho, uma coluna de monstros prateados? Este é um feito à minha altura!” E arremataria, esporeando o já cansado Rocinante.

Que resultaria de tamanha batalha?

No fundo, não acredito que o engenhoso fidalgo da mancha não visse os moinhos. Para mim, era apenas demasiado tentador não ver os monstros. E havia a curiosidade, que não é uma patente lusitana.

Aliás, todos nós temos um pouco de cavaleiro da triste figura.

O monstro devora-nos a curiosidade.

Ou então o monstro é a própria curiosidade, que se vai alimentando da nossa alma.

Hmmm!…

Digo eu.]]></description>
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<pubDate>Sat, 07 May 2005 00:00:00 GMT</pubDate>
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<title><![CDATA[Rememorizando]]></title>
<description><![CDATA[“Nunca voltes aos lugares onde foste feliz um dia” não sei quem disse esta frase, nem em que circunstâncias, mas sinto-a hoje como nunca a senti – está-me no sangue, que a deixa marcada por toda a parte (vai-a deixando escrita pelas minhas veias à medida que vai passando, como um grafitti que ninguém consegue evitar de ler numa parede), tatua-a mil vezes no meu coração a cada nova passagem até da mais insignificante das gotículas da seiva da vida, abrindo caminho, com uma promessa do regresso que nunca foi.

Todavia, eu cá estou outra vez – mais uma vez. Nunca aqui estive, mas juraria que nós já cá estivemos. Sobra muito pouco daquele dia, que talvez nem tenha sido um dia (que talvez até tenha sido uma noite), um dia ou uma noite, que não foi ontem, não é hoje, não é amanhã. Restam apenas os rodados do carro, que já não são do mesmo carro, que já não são do meu carro, que já não são do teu carro – eu era ele, tu eras ela, só que ele era outro, tu eras outra também, já não sei se fomos nós que fomos felizes aqui, talvez tenham sido outros quaisquers, depois partiram e deixaram-nos a cada um de nós fechado dentro do seu próprio mundo.

Reescritas as memórias, rememorizado o passado, fica-me um sabor amargo na boca – talvez ao sabor estranho de um beijo teu.]]></description>
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<pubDate>Thu, 05 May 2005 00:00:00 GMT</pubDate>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Aconteceu]]></title>
<description><![CDATA[Fim de semana no meio do nada. A herdade ficava distante de tudo e de todos. Os telemóveis não tinham rede, a electricidade era possível apenas graças à energia solar. O sossego era tanto que o ritmo biológico parecia acompanhar em sintonia perfeita o ritmo da natureza… tal como devia ser sempre. Esperei que todos se deitassem para tirar algumas fotos nocturnas. A noite já ia longa, mas descobria-me surpreendentemente fresco e inspirado. 

Experimentei diversos enquadramentos e perspectivas, sempre com o cuidado de não me afastar muito da casa. Afinal encontrava-me em terra estranha e, apesar da lua cheia que enchia o mundo duma fosforescência azul, não seria preciso muito para me perder nalgum carreiro ou caminho mais desviado.

Enquanto aguardava que a máquina fotográfica fizesse da noite dia, sentei-me no chão, e deixei-me invadir pela paz e serenidade envolventes.

Fechei os olhos.

Sentia-me longe de tudo, sentia-me até longe de mim próprio – a minha vida pareceu-me subitamente uma coisa insolitamente estranha e vagamente distante, à qual não me apetecia regressar. À minha volta sentia apenas o chilrear dos pássaros e outros ruídos mal definidos. Esvaziara-me de mim mesmo, e sentia-me bem. Deixei que a noite entrasse por mim adentro. Isolei o canto de cada um dos pássaros. A minha mente viajou por todos os ramos das árvores em volta, localizando-os um a um, como o mais perfeito e infalível dos radares. Não posso dizer de que espécie eram, não sei quais as suas cores ou de que tamanho eram os seus bicos, mas sabia exactamente onde estava cada um deles. E então voltei-me para um misterioso murmúrio quase inaudível… Há muito que o tinha detectado, embora não o conseguisse identificar. O que poderia ser aquilo? Não era o crepitar da fogueira à frente da casa. Essa estava demasiado longe… Seria um animal a rastejar? Não, o som era demasiado contínuo e sem grandes flutuações. Parecia… Ah! Exactamente, era um fiozinho de água a correr não muito longe dali. Devia ser um qualquer ribeiro ou regato não muito afastado dali. Agora eu sabia onde se situava tudo em meu redor… Fazia parte daquela paz e serenidade primordiais. Era livre e feliz como nunca imaginara que se poderia ser. A minha vida parecia ter ficado irremediavelmente para trás… por um instante acreditei que jamais poderia regressar… Algures por essa altura, acho eu, cheguei a ti… embrulhada nos lençóis, jazendo sobre a cama, dentro do quarto mal iluminado pela claridade da lua e da fogueira que espreitava pela janela entreaberta… e compreendi que tinha de voltar.

E foi então que abri os olhos.]]></description>
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<pubDate>Sat, 30 Apr 2005 00:00:00 GMT</pubDate>
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