|
|
| Saturday, 26-Jun-2004 00:00 |
Email | Share | | Bookmark |
|
No nevoeiro
|
|
O jovem capitão chegou à porta da rua e sentiu o bafo frio do nevoeiro a acariciar-lhe o rosto. Estava nervoso. Tirou mais um cigarro do maço e acendeu-o. Era o quinto daquele dia e ainda não eram onze da manhã. Estava mesmo muito nervoso.
Tentou descortinar no nevoeiro sinal da comitiva que traria o Quadro. Que diabo! Já eram horas de chegarem. Ele sabia que tinham deixado a capital às sete da manhã. Recebera uma nota confidencial a avisar que tudo corria pelo melhor.
Teria sucedido algo? Não, não era possível. O inimigo passara a fronteira apenas na véspera. Ainda nem se contavam 24 horas desde o início da invasão. Era impossível que tivessem avançado tanto que houvessem conseguido interceptar o maior tesouro nacional da sua pátria. Não!... Era de certeza o maldito nevoeiro!
O capitão sabia que tudo fora minuciosamente preparado, programado ao mais infímo pormenor. Assim que fora dada notícia da audácia do inimigo, tinha sido iniciada a remoção do Quadro para fora do Museu Nacional. O Quadro, obra magna de Z., o maior de todos os pintores nacionais, fora retirado por uma das janelas, devido à sua monstruosa dimensão. Três metros de altura por quatro de largura. Estava a ser conduzido num camião habitualmente utilizado para transportar estruturas industriais. Uma coluna militar escoltava o quadro, constituída por homens que não hesitariam em dar a vida pelo símbolo maior do país. Todos os anos milhões de turistas chegavam à capital para o ver. O Quadro era o maior tesouro do país e o repositório do orgulho nacional. Era intolerável imaginar que o inimigo lhe pudesse pôr as mãos em cima, em caso do pior cenário possível. Havia ainda o risco de ser destruído nos previsíveis bombardeamentos que se seguiriam nos próximos dias.
O capitão só vira o Quadro uma vez ao vivo. Tinha acabado de se formar na Academia Militar. Deixou-se ficar por horas a admirá-lo. Três séculos depois, era portador ainda do fascínio que inspirara aos seus antepassados. No meio do deslumbramento, recordou-se do severo castigo que o professor primário lhe dera quando ele não fora capaz de explicar satisfatoriamente o que representava o Quadro. E realmente quem poderia alguma vez explicar satisfatoriamente “aquilo”?
Então começou a ouvir-se o barulho de um motor ao longe… Algum veículo se aproximava. O capitão suspendeu a respiração. Era mais do que um motor. Vários veículos se aproximavam da casa. Só quando o ruído parecia tornar-se ensurdecedor, conseguiu distinguir primeiro um, depois dois, três, vários pares de faróis no nevoeiro.
O capitão atirou o cigarro ao chão e apagou-o com o pé. Era chegada a hora. Voltou a entrar, atravessou o corredor com passadas largas dirigindo-se ao seu gabinete. Tirou o chapéu, sentou-se na secretaria e começou a despachar a papelada do dia.
Minutos mais tarde o tenente responsável pelo transporte apresentou-se diante de si e entregou-lhe as ordens. O capitou poisou o papel para evitar que o tenente reparasse como as suas mãos tremiam enquanto lia o papel. Suspirou de alívio. Nessa noite sonhara que as ordens seriam “Destruir o Quadro na encenação de um ataque inimigo”. Felizmente tudo não passara dum terrível pesadelo. Certamente haveria outras formas de espicaçar o orgulho nacional. Felizmente que a vidência não era um dos seus talentos escondidos…
– Estou à sua disposição. – Saudou o Tenente.
– Peço autorização para proceder a todos os preparativos, meu capitão.
– Autorização concedida, o responsável do dia acompanhá-lo-à.
Depois do tenente sair, o capitão despachou todo o trabalho pendente sobre a sua secretária. Antes de almoçar dirigiu-se então à estufa onde a equipa de técnicos do Museu Nacional procederia aos trabalhos. Entrou e pôde ver ainda o Quadro, majestoso, imponente, soberbo… Então, a tela começou a ser enrolada por técnicos e militares, como que desaparecendo sobre si própria. Em breve restava apenas um volume imenso, enrolado como se de uma carpete se tratasse. Agora havia que acondicioná-lo no invólucro protector e levá-lo para o abrigo subterrâneo anti-nuclear na cave do edifício. Enquanto a guerra durasse esse seria o seu esconderijo. Este seria um dos segredos mais bem guardados da história do país. O capitão, os seus homens, os técnicos do museu e todos os que sabiam o que ocultaria verdadeiramente esta antiga mansão ficariam aqui, encapotados por debaixo de identidades civis, como guardiões da dignidade nacional. Se por acaso o inimigo alguma vez ocupasse esta região, seria função de todos, mesmo que os oficiais inimigos escolhessem aquela casa para base de operações, zelar pelo segredo que era de todos e da própria nação.
Mas, naquele instante, o capitão revia ainda o Quadro por inteiro, enquanto todos dentro da estufa se atarefavam e corriam dum lado para o outro, preparando o invólucro interior. O capitão saiu da estufa e embrenhou-se no nevoeiro, caminhando sem destino até alcançar a escarpa que se abria para o mar. Sentou-se sobre uma rocha. Deixou-se beijar pela luz do sol que furava a medo pelo nevoeiro. Pensava quando, ou se alguma vez, tornaria a ver o Quadro, tal como o via ainda no crepúsculo daquele momento mágico. Pensou que talvez dali a não muitos anos a guerra terminasse, e o Quadro pudesse voltar ao Museu Nacional, na capital. Seria ele vivo ainda nesse dia? Pensou que talvez um dia, num futuro distante, algum maluco retalhasse o Quadro com uma faca de cozinha ou o borrifasse com ácido, destruindo o esforço monumental que aquele conjunto de pessoas se aprestava a fazer, sabe-se lá com que custos e sacrifícios. O capitão pensou que se sobrevivesse à guerra e a uma eventual ocupação inimiga, um dia, quando pudesse, talvez na reforma, se mudaria para a capital e todos os dias iria visitar o Museu Nacional, para ver e proteger o Quadro. Esse seria o objectivo da sua vida.
E num momento de clarividência, de iluminação interior, o jovem capitão conseguiu ver-se a ele próprio, muito velhinho, sentado numa sala do Museu Nacional, em frente ao Quadro, prestes a exalar o último suspiro, com a sensação do dever cumprido... Em paz.
|
|
|
|
|
|
| Tuesday, 8-Jun-2004 00:00 |
Email | Share | | Bookmark |
|
Encruzilhadas
|
|
O sol descia lentamente para o descanso merecido.
Pensou voltar a consultar a sua moedinha da sorte - uma moeda de um escudo de 1899 da qual nunca se separava.
Não, era melhor não.
Consultara-a nem dois minutos antes.
Sempre que tinha de tomar uma decisão importante deixava a opção para a sua moeda da sorte.
Tirava-a do bolso e escolhia cara ou coroa para as duas possibilidades que se assemelhavam como mais óbvias (sim porque antes tinha de filtrar todas as opções até restarem apenas e somente duas).
A velha moeda descolava da sua mão e quando atingia o chão, ditara já a solução para todas as suas inquietações.
...
Estava curioso em saber o que resultaria duma nova consulta...
Já o fizera antes: colocar à prova a sorte que decidia o seu sucesso, felicidade e paz de espírito. Não no próprio dia, mas um dois dias passados. E a opção inicial nem sempre era reconfirmada. Que conclusão retirara? Que a vida era um labiríntico emaranhado de encruzilhadas, dependente de incalculáveis variáveis cósmicas e astrais. Aquela que fora a melhor solução ontem, poderia não o ser hoje, pois toda a conjuntura kármica e universal se alterara entretanto.
Era a única explicação plausível a que conseguira chegar. Mais do que plausível, perfeitamente óbvio e evidente.
E se voltasse a consultar a moeda?
Não, era melhor não-não convinha dispersar-se.
Por agora era melhor gozar a beleza do dia que terminava - amanhã haveria muito a fazer.
|
|
|
|
|
|
| Monday, 31-May-2004 00:00 |
Email | Share | | Bookmark |
|
Exit
|
|
Porquê "exit"? Afinal esta é a minha primeira entrada neste espaço. Não deveria eu ter mantido o título "Entrada" como instintivamente me passou pela cabeça mal descobri como se faziam as entradas de texto nesta página?
Não, "Exit" surgiu na minha cabeça e engoliu completamente o "Entrada", deixando pouco menos que nada do supostamente inteligente trocadilho que eu pensara fazer aqui.
"Exit" porquê?
Boa pergunta. Deixa cá ver...
Todo o centro de exposições que se preze tem a sua porta de saída, uma porta de emergência, geralmente identificada pela palavra EXIT.
Pois bem, consideremos este espaço como um centro de exposições virtual onde (sem querer parecer pretensioso) eu pretendo expor algumas das minhas fotografias, acompanhando-as da respectiva legenda, dum breve comentário ou das pequenas inquietações que se escondem para lá da parcela de cor, luz e escuridão de que todas são feitas.
Imagino que é pela porta de entrada que técnicos imaginários trazem essas fotografias, as desencaixotam cuidadosamente, limpando-lhe ainda o pó e as fixam na parede virtual, deixando tudo preparado para que o visitante (esse sim de carne e osso) caminhe dois ou três passos até entrar na galeria e observe as fotografias: ora emocionando-se até ao mais fundo do seu ser, ora não sentindo mais do que a mais profunda das indiferenças.
Exit será aqui a porta por onde foge a multidão das emoções humanas quando chega a tempestade que nos afunda no mais fundo dentro de nós próprios.
Em certa medida, esta é, a partir de hoje, também a minha saída de emergência.
|
|
|
|
|