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| Monday, 23-Aug-2004 00:00 |
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PRINCIPIOS DE ESTAÇÃO IV
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Bye, bye, blackout
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Eis o inverno que desponta.
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A terra estará húmida e gelada.
Os mares serão implacavelmente açoitados pelos ventos.
A chuva precipitar-se-à sobre todos nós, molhando os rostos e encharcando os espíritos.
O frio crescerá dentro tempo, congelando o mecanismo dos relógios, atrasando apenas um pouco mais o andamento dos ponteiros.
E o tempo demorará a passar, apesar dos dias serem curtos e as suas horas breves.
As noites, porém, arrastar-se-ão sem apelo nem agravo, na esterilidade dos meus sonhos.
O meu coração sente-se velho e abandonado.
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O ciclo morre dentro de si próprio - desenhando um círculo perfeito.
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| Friday, 20-Aug-2004 00:00 |
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INTRODUÇÃO À TRIGONOMETRIA I
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Abatido
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Por vezes os pés levam-me de volta ao barco.
Sinto-me como ele – abatido.
Quem te viu e quem te vê…
Quem abate um barco como este devia abater também o seu mestre.
Quem me viu e quem me vê…
A minha vida resume-se actualmente a procurar em quem deitar as culpas.
Enquanto tive o barco consegui sempre orientar a minha vida, apesar dum ou outro pequeno acidente de percurso… O barco era o meu ganha-pão. Quando recebi o dinheiro da indemnização do barco… Bem, recebi-o, gastei-o e fiquei absolutamente impossibilitado de voltar a ganhar dinheiro.
De quem será realmente a culpa? Do governo? Da união europeia? Dela?
Os ratos são sempre os primeiros a abandonar o navio – e a verdade é que mal as coisas apertaram ela se pôs ao fresco.
E aproveitou e levou o meu filho com ela.
Pelo menos levou-o para longe do mar, para o interior.
O mar destruiu todos oshomens da minha familia - matou o meu pai, o meu avô, o meu bisavô e transformou-me no destroço que eu sou hoje.
É bom saber que ao menos o meu filho terá a oportnidade de crescer longe do mar...
E a coisa mais difícil é mesmo falar com o puto ao telefone.
Ter de dizer “O papá gosta muito de ti.”, sabendo que ele não acredita – sabendo que ele sabe que eu próprio não acredito…
Se calhar a culpa é mesmo minha… Quando batemos no fundo não adianta continuar a usar as desculpas de sempre.
Por outro lado, se eu continuar a beber a este ritmo, pode ser que não viva muito mais tempo – o que resolvia todos os meus problemas duma vez por todas.
Às vezes acordo a meio da noite com uma sede terrível. Arrasto-me até à primeira garrafa que encontro e trago-a para a cama.
Imagino o álcool a boiar no meu estômago e o barco a navegar às cegas dentro de mim, sem estrelas por que se guiar e com os instrumentos de navegação todos mortos.
Imagino-me dentro da cabine, manobrando desesperadamente.
Este é o meu barco… ou nos salvamos os dois ou morremos os dois.
Mais cedo ou mais tarde o barco há-de chocar com a parede interior das minhas entranhas, afundando-se sem esperança – arrastando-me gloriosamente consigo para a eternidade…
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| Thursday, 19-Aug-2004 00:00 |
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INTRODUÇÃO À TRIGONOMETRIA II
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Cinzento
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Em breve será domingo, em breve o meu pai virá buscar-me e talvez me leve a pescar com ele.
Já não vamos pescar no barco, como quando eu era pequeno, mas no molhe norte, com as canas e os anzóis.
Se calhar até podemos apanhar umas minhocas aqui ao pé da casa nova. Sabe-se lá que tipo de peixe é que elas conseguiam atrair…
Tenho saudades do meu pai. Tenho saudades do mar...
Será que ele vem no próximo domingo?
Acho que, apesar do barco estar agora a apodrecer em terra firme (como ele diz de tempos a tempos), o meu pai continua a navegar pelos oceanos de mágoas e frustrações de sempre.
É por isso que às vezes ele não aparece ao domingo – está lá longe, em cinzentos mares, onde os telemóveis não trabalham e um pescador é aquilo que arranca às profundezas do mar.
Será que o meu pai vem no próximo domingo?
Há tanta coisa nova que eu gostava de lhe contar… e dizê-las ao telefone não é a mesma coisa…
A lagoa ao pé da minha casa nova tem um poço no meio.
Há dias tive um sonho. Sonhei que tinha ido buscar água ao poço no meio da lagoa. Caminhei sobre as águas e espreitei lá para dentro. Estava escuro demais para ver aonde se situava o nível da água. Lancei o balde e ouvi-o bater com estrondo no fundo – estava seco.
Então voltei para casa, entrei no meu quarto, meti-me entre os lençóis e adormeci novamente.
De manhã estava constipado.
Gostava de contar esta história ao meu pai.
Será que ele vem no próximo domingo?
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| Wednesday, 18-Aug-2004 00:00 |
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INTRODUÇÃO À TRIGONOMETRIA III
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Seara Nova
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O emprego é novo, a casa é nova, a vida é nova; só eu continuo a ser a mesma de sempre – com o peso acrescido do miúdo.
É estranho viver longe do mar pela primeira vez em toda a minha vida, mas há uma lagoa linda ao pé de casa.
Não é a mesma coisa, o barulho não é o mesmo – hei-de acabar por me habituar à suavidade do coaxar das rãs, e esquecer a fúria das ondas em noites de tempestade.
No outro dia, fui dar um passeio ao fim da tarde. Aproveitei que o miúdo ainda não tinha voltado da excursão da escola e saí por esses campos fora.
Não foi preciso dar muitos passos até encontrar um campo semeado com milho.
Aquela imagem fez um clique qualquer dentro de mim…
Recordou-me das férias que passei no campo em casa dum tio da minha mãe, tinha para aí uns dez anos.
Foram as melhores férias da minha vida.
No Inverno seguinte a minha mãe morreu e a minha vida nunca mais foi a mesma.
Só mudou, para pior, anos mais tarde, quando casei e saí de casa de meu pai.
Mas isso fora muito tempo depois. Agora, tal como se tivesse dez anos outra vez, crescia dentro de mim uma imensa paz e harmonia.
Deitei-me no meio daquela seara nova, pulsante de vida e criação.
Por um momento acreditei verdadeiramente ter dez anos outra vez.
Sentia-me bem. E então veio o medo – o medo de sempre.
Não sabia se temia ser surpreendida pelo meu pai, pelo meu marido ou pelo meu filho, mas o certo é que me levantei a correr para casa, trancando a porta trás de mim.
À noite, em casa, deitada na solidão da minha cama, acordei sobressaltada… esta memória era de hoje ou de há vinte anos atrás?
Que idade é que eu tenho?
Dez anos? Trinta anos? Sessenta anos?
Ouvi alguém dizer com uma voz inacreditavelmente sumida:
- Mãe?
Só não sei se fui eu ou o meu filho.
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| Tuesday, 17-Aug-2004 00:00 |
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Ida à Berlenga
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Ele saíra do Cabo Avelar Pessoa ainda combalido, sentindo que tinha vomitado as próprias tripas. A viagem de barco entre Peniche e a Berlenga era efectivamente terrível.
Agora, com o vento fresco da manhã a massajar-lhe o rosto começava a ver as coisas com outras cores. Sentia-se um homem renovado.
A Berlenga era realmente bonita… Valera a pena a viagem, apesar do enjoo. A ilha seria um autêntico paraíso, se não fosse a barulheira infernal que os milhares e milhares de gaivotas faziam.
Ela apareceu subitamente por detrás dele, abraçando-lhe a cintura.
- Então, mais bem dispostinho?
Ele deu uma volta de 180 graus dentro daquele abraço e beijou-a nos lábios.
- Sim, estou muito melhor. Vamos continuar o nosso passeio?
Ela acenou que sim e partiram de mãos dadas.
Lá de cima era ainda mais evidente a limpidez da água. Incrível o pormenor da sombra no fundo do mar dos botes atracados!
Subiram até ao farol, que não puderam visitar por estar fechado.
Seguiram pelo trilho marcado no chão, de que as gaivotas eram as guardiãs oficiais – sempre que tentaram abandonar o caminho obrigatório, dezenas de bicos histéricos começavam a sobrevoar ameaçadoramente as suas cabeças a distâncias cada vez mais curtas.
Encantados pelo enquadramento dos Farilhões e Estelas, sentaram-se um bocadinho, aproveitando as tréguas concedias pelos raios do sol temporariamente escondidos atrás das nuvens.
Tréguas vencidas, caminho retomado.
Desceram até ao Forte de São João Baptista.
Do forte partiram de bote para um pequeno passeio turístico, com escala na Tromba do Elefante e que terminou no cais onde o Cabo Avelar Pessoa se preparava para devolver toda aquela gente ao Continente.
Anos mais tarde, sempre que ela se tentava lembrar dalguma coisa relacionada com aquela ida à Berlenga a primeira coisa que recordava era a conversa que tivera com o ex-namorado, na esplanada do Forte.
Ele dissera que a ilha era tão bela que até um artista sem imaginação conseguiria fazer a partir dela uma obra prima.
Ela perguntara:
- Achas que pode existir um escritor sem imaginação?
- Acho.
- Mas como poderia ser tal coisa?
- Sei lá… Por exemplo se ele só contar que viu ou que lhe contaram.
- Mas ainda assim teria de inventar uma parte da história, ou seja, criar pequenos pormenores, mudar o nome às personagens, situá-las no tempo e no espaço… Senão não estaríamos a falar de ficção mas duma biografia, dum ensaio, ou coisa do género…
- Não, acho que ele podia inventar sem ter um mínimo de imaginação.
- Como?
- Bastava-lhe associar montes de pequenas histórias e episódios que estivessem armazenados na sua memória – não precisava de imaginação para escrever um livro, bastava-lhe boa memória.
- Sssssim?…
- Eh pá!. Estás para aí a… a… a obrigar-me a pensar. Deixa cá ver… Já sei! Estás a ver uma página dum livro “Onde é que está o Wally?”
- Sei, desenham centenas de pessoas na mesma página e nós temos de descobrir no meio daquela confusão de caras, corpos e cores um rapaz magro e alto de óculos com um gorro e uma camisola às riscas vermelhas e brancas. O que é que tem?
- Ao escritor sem imaginação basta reduzir todas aquelas situações e personagens, que ele conhece ou de que ouviu falar, a 3 ou 4 personagens e a 7 ou 8 situações concretas.
- E achas que isso resultaria?
- Acho! Acho e até te digo mais: quando eu for mais velho, quando eu tiver praí 50 ou 60 anos, sou muito bem capaz de escrever um livro.… Será só um, mas nele vai estar tudo o que tenha acontecido em toda a minha vida.
- Ena, ena!
- Podes acreditar! Aliás, para mim, nenhum escritor tem imaginação! Eles são é mentirosos extremamente convincentes. As personagens têm tanta profundidade quanto a credibilidade que tu, com o teu poder único, absoluto e omnipotente de leitora, lhes estejas dispostas a conferir. E acho que não preciso dizer mais nada, pois não?…
- Pois sabe o que lhe digo, senhor futuro prémio nobel da literatuta? Daqui a uns anos voltamos a esta conversa, agora é melhor irmos andando, senão ainda perdemos o barco.
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| Thursday, 5-Aug-2004 00:00 |
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Amor de cabana
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Pois, em tempos bastava o amor e uma cabana.
No tempo dos meus pais toda a gente quando casava já tinha casa. Por outro lado, ninguém tinha carro.
Hoje é ao contrário: ele e ela têm carro, mas nenhum tem casa.
É verdade, hoje as coisas são bem diferentes.
Hoje o amor de cabana vende-se com tudo incluído – talvez para pagar a prestação da própria cabana.
Pior do que viver num mundo cão, é viver numa época cadela.
Realmente, os empréstimos bancários foram a forma ideal que o sistema capitalista encontrou para controlar os trabalhadores... Não podes fazer muito barulho, senão perdes o emprego. Se perdes o emprego não podes pagar a prestação da casa, do carro, da máquina fotográfica digital… nem sequer do barco.
E então tu não reivindicas os teus direitos, pois neste mundo superficial tu és as tuas coisas, tu és aquilo que possuis.
E tu não queres deixar de ser aquilo que os outros pensam que tu és!
Então, tu tens que ter uma casa como deve ser para receberes os teus amigos (Qual cabana qual caraças!), precisas ter um carro vistoso, vestir roupa de marca, usar um telemóvel última geração, passar férias em lugares exóticos…
E no meio de tudo isto haverá lugar para o amor? Talvez sobre algum espaço para o arrumar ainda dentro da cabana (que já não é uma cabana).
Sem a cabana, onde poderia abrigar-se o amor?
O amor não foi feito para viver debaixo da ponte. É um sentimento caro… precioso.
Ninguém investe nele sem pesar muito bem todas as variáveis financeiras e a conjuntura económica.
As acções do Amor devem estar bem cotadas na bolsa…
Estão cotadas a valores tais por unidade, que se tornam quase inacessíveis…
São caras, embora desvalorizem constantemente.
É para mim um mistério saber como é que algo que está sempre em queda nos mercados financeiros pode continuar a ter um preço tão caro.
Se bem que o valor do Amor seja apenas virtual…
(Almas sedentas de amor por todo esse mundo fora: chegou a hora da revolução – todos os especuladores bolsistas para o cadafalso, já!!!)
No fundo, o caso do Amor espelha bem o funcionamento da bolsa… Os pequeninos estão sempre lixados. Quem ganha alguma coisa é sempre aquele que tem capital para investir em força.
E tu tens de guardar o dinheiro para pagar a prestação da casa, do carro, a conta do telemóvel, a conta da televisão por cabo… Não podes perder o teu emprego. Logo não reivindicas os teus direitos…
E o Amor era um dos teus direitos…
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| Tuesday, 27-Jul-2004 00:00 |
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Andando a pé em Óbidos
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Andando a pé em Óbidos, dei por mim a seguir obsessivamente um dos grupos do Peddy Paper.
Era um grupo de quatro pessoas. Dois rapazes e duas raparigas. Novos, talvez nem 20 anos ainda.Ironicamente confundir-se-iam facilmente com dois casais hippies do final dos anos 60, embora nessa altura os pais deles devessem ser ainda umas crianças.
Seguia-os a uma distância de segurança – discretamente afastada de modo a não compreenderem que os seguia; suficientemente próxima para conseguir ouvir tudo o que diziam.
Uma das raparigas lia as perguntas no questionário “Qual o nome da família que mora no Nº3 da rua tal?…” Os outros soletravam o nome na placa junto ao 3 enquanto a rapariga anotava a resposta, prosseguindo depois todos ordeiramente o percurso.
Ora aí estaria o método perfeito para contrariar a aleatoriedade e contingência da minha vida!
Se alguém transformasse os meus dias em provas de Peddy Paper, seguramente deixaria de andar a correr tresloucada dum lado para o outro e a minha vida ganharia o sentido de ordem e disciplina que eu sou incapaz de lhe dar.
Imagino o quanto seria bom amanhã ao acordar encontrar na caixa do correio um envelope dourado com o questionário e ir a correr tomar banho e o pequeno almoço para sair de casa e começar a prova o quanto antes!
Ao fim da tarde, extenuada, iria entregar o envelope na recepção dum hotel alguns quilómetros mais a norte e no outro dia pela manhã o enigmático organizador deixaria o questionário para o novo percurso por debaixo da porta do quarto reservado em meu nome.
Nova prova, a acabar nessa noite ainda mais a norte. Novo hotel, para nova entrega do questionário e novo quarto reservado em meu nome, onde mais uma vez, como sucederia daí em diante um pouco por todo o país, depois por Espanha, França e pelo mundo fora, todas as manhãs encontraria um novo questionário sempre dentro dum envelope dourado.
Viajaria de balão, de burro, de barco, de avião … experimentaria todos os lugares e todos os meios de transporte!
O organizador permaneceria incógnito, aumentando a minha avidez e curiosidade, escondendo-se por detrás da sagacidade e inteligência dos percursos e o requintado bom gosto na escolha dos hotéis e do meu guarda roupa – para sempre envolto num véu de mistério, fascínio e sedução.
E um dia eu encontraria o fim do mundo… Um enorme e monstruoso precipício, com o mais medonho dos mares revolteando-se lá em baixo e a mais negra e assustadora linha do horizonte que eu alguma vez encontrara nas minhas viagens.
Seria ali, na borda do abismo, que eu leria a última pergunta da prova de daqui a, digamos, 30, 40 anos: “Tudo está visto, tudo foi vivido. Se o desejares podes voltar agora àquele dia em Óbidos, tantos anos atrás. Se pretenderes seguir no jogo, chegou a altura de saltar para o vazio e ultrapassar a última fronteira.”
E eu que faria? Mergulharia no abismo, de braços abertos para encontrar esse secreto e bem aventurado organizador, ou regressaria a este preciso momento?
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| Friday, 23-Jul-2004 00:00 |
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Geografia universal
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Encontro quase tudo e mais alguma coisa na parede do quarto em obras!
Raios me partam se os restos de papel de parede de repente não parecem continentes inteiros vistos da atmosfera!
Olhem lá e digam com franqueza se não parece mesmo o pormenor dum planisfério imaginário? O amarelo representando o continente e o azul o mar, acentuando o tom na força das correntes.
EU SEI que é apenas papel de parede, como o que jaz a meus pés. Só ainda está na parede porque não saiu à primeira puxadela. No entanto, não me é difícil sonhar ali uma montanha, aqui um lago, acolá uma cidade.
Consigo ver que se trata dum único país.
A cidade de que falei é a capital, todos os outros aglomerados urbanos são de pequena dimensão e concentram-se em pequenas elevação (neste caso o amarelo mais claro),pelo que suponho que seja um território baixo e dado a inundações.
As linhas de comunicação são simples e rectilíneas, logo calculo que não existam veículos motorizados, apenas animais, provavelmente cavalos.
Penso que não haja electricidade, pelo menos não vejo indícios disso.
Diria que a economia assenta na agricultura, apesar de algumas aldeias piscatórias. Todas estas gigantescas extensões planas são plantações de diferentes produtos.
Os barcos que chegam ao porto da capital trazem as especiarias, roupas, calçado e tudo o resto, regressando às suas pátrias a abarrotar de cereais.
Não existe moeda. É o estado, a partir da gestão dos recursos, a assegurar que nada falte aos cidadãos.
O povo?
O povo é moreno, queimado pelo sol. Têm o seu quê de mediterrânico…
Vivem bem e parecem ter saúde.
O governo é assegurado pelo cidadão mais velho da ilha – pois se é um único país, doravante chamar-lhe-ei ilha –, que rege a nação e os seus concidadãos tendo por critério apenas a justiça e a sabedoria acumulada ao longo da sua vida. Da assembleia de anciãos que o aconselha, sairá um dia o seu sucessor.
A religião?
Este, povo não tem outra religião que não seja o cultivo do belo e das artes. Todos sem excepção abraçam uma arte, seja a música, o desenho, a caligrafia ancestral, entre tantas outras.
Nos tempos livres emocionam-se com a arte do vizinho e meditam em tudo o que os rodeia.
O amor não é para os tempos livres! O amor é o fundamento dos alicerces desta sociedade. Desta forma como pode alguém criticar os dois colegas que deixaram momentaneamente o trabalho para se amarem uma vez mais? Deste amor talvez nasça o braço que um dia auxilie o filho deste trabalhador.
Amores simples, espontâneos e nada complicados.
Não há recordação dum único crime de sangue nesta ilha!
Os mortos são incinerados três dias depois do último sopro e as cinzas atiradas à terra recém semeada ou às ondas do mar.
Uma sociedade perfeita, se é que podemos esquecer os desaguisados de pouca monta que a qualquer hora do dia são presentes ao governador da ilha.
Agora, infelizmente, vou ter de varrer completamente da face do planeta este fantástico continente, condenando à morte todos os seus habitantes e atirando para um fatal esquecimento a sua fascinante cultura e civilização.
Uma utopia deve ser isso mesmo: uma utopia.
Quem sabe não foi precisamente isto o que aconteceu à Atlântida?
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| Wednesday, 14-Jul-2004 00:00 |
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O Pescador
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Uns fumam, outros jogam kickboxing, alguns tiram fotografias, eu pesco.
A pesca é a distância que vai entre a minha sanidade mental e a loucura.
Eu gosto de pescar - é a minha forma de relaxar, de me isolar, de me abtrair de tudo o resto.
É a minha forma de esquecer que, por exemplo, ainda não consegui sacar o nº vodafone! Raios partam! O número faz-me falta! Eu explico: o meu primeiro número de telemóvel era TMN. Ou seja, 96... não interessa o resto. Quando eu decidi sair da loja de tintas e começar a trabalhar por conta própria, concluí que devia ter também números Vodafone e Optimus. Vai daí o que eu pensei? E se eu sacasse os números 91... não interessa o resto e 93... não interessa o resto? E toca de telefonar para o 91... não interessa o resto e 93... não interessa o resto. No 91 atendeu-me uma senhora muito simpática que não teve problema nehum em vender-me o número, portanto assunto resolvido. Agora no 93 é que foi pior. O estupor do número ainda não foi activado. Na Optimus disseram-me que ele anda por aí, numa loja qualquer, só que o telemóvel ainda não foi vendido, logo o número ainda não foi activado. Desde então tenho telefonado quase todos os dias para o 93... não interessa o resto e nada... Fico sempre a chuchar no dedo. E isto é uma grande chatice, pois assim não tenho as três redes e farto-me de gastar dinheiro.Também não posso mandar fazer cartões de apresentação em grandes quantidades, pois nunca sei quando é que a merda do número vai sair (e pior que isso nem sei se o novo dono mo vai vender assim na boa!). Ah, vida stressada!
Por isso é que eu preciso destes momentos que só a pesca me consegue oferecer!... Reparem como foi só pensar nisto para as minhas pulsações dispararem a mais de mil à hora!
Eu gosto de pescar.
A pesca é a distância mais curta entre a minha sanidade mental e a loucura.
E o que é engraçado é que nunca levei um peixe para casa. Deito sempre tudo o que apanho para o mar. é verdade que eu não gosto de peixe, mas não é essa a razão... a razão é... é... Sei lá qual é a razão!Tomara eu não ser pescado um dia destes também...
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| Saturday, 10-Jul-2004 00:00 |
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A espera é a pior parte
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Raios!!! Será que nem aqui estarei a salvo? Sejamos realistas... Ninguém se lembraria de me procurar aqui! Quanto mais não fosse pelo receio de levar na cabeça com uma telha caída do tecto podre. Tenhpo de me acalmar... Ninguém me procuraria num casebre arruinado como este. Agora há que esperar...
Esperar... Esperar pelo quê? Pela noite? Esperar que ninguém me encontre? Deus do céu! Isso pode demorar a vida inteira!... Nem sei se não valerá mais a pena ser descoberto e acarretar com as consequências! Que digo? Estarei a enlouquecer? ISTO NÃO É O JOGO DAS ESCONDIDAS!!!!!!!! Eu pura e simplesmente não posso ser descoberto. Tenho de me perder para sempre... Tenho de desaparecer da face da terra - ninguém pode jamais em circunstância alguma voltar a ver-me.
Tenho de me acalmar... Encontrar este esconderijo foi fácil, agora a espera... A espera é que está a dar cabo de mim. A espera é a pior parte... Já o dizia a canção do Tom Petty. "The waiting is the hardest part." Engraçado estar a lembrar-me disso... Nunca curti muito essa música. Se tivesse de escolher as melhores músicas do cd, quase de certeza que nem a elegia, porém... É engraçado verificar todas as alterações que a condição de fugitivo pode implicar na nossa vida...
A fuga é uma arte delicada. Implica mil e um pormenorzinhos de nada. O fugitivo será o mestre absoluto do auto-controle. Um fugitivo bem sucedido é hoje bem mais difícil de encontrar do que um justo em Gomorra, acreditem-me! O fugitivo é o grande martir da globalização. O fugitivo foi o cordeiro imolado no altar sacrificial da viragem do milénio.
E tudo é incomparavelmente mais difícil quando fugimos de nós próprios.
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