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| Saturday, 2-Oct-2004 00:00 |
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ANFITEATRO
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Aqui sinto-me verdadeiramente pequeno…
Talvez nunca tenhas abandonado o patamar inferior.
Este é o grande anfiteatro universal.
Ou a grande arena cósmica.
Sinto-me como se pisasse o palco das emoções humanas…
E que emoções são essas?
Sei lá… euforia, tristeza, paixão, ódio… tantas…
Tantas, mas tão poucas.
Pouco é não conhecer a voz do nosso coração.
O teu coração traiu-te sempre que teve oportunidade.
Porque me odeias?
Eu não te odeio.
Desprezas-me?
Nada tenho contra ti.
Então porque me tentas?
Seria sórdido da minha parte não o fazer.
Corrompes-me a alma…
O horror esconde-se na paz e na serenidade.
Eu não escolhi a tua companhia.
Eu não sei o que é escolher.
Despedaças-me.
Não me permitirei ao luxo da compaixão.
Partirás um dia?
Se a minha missão estiver cumprida.
Qual é a tua missão?
Está escrita a fogo no fundo da tua mente.
Desconheço essas palavras.
Olha para a tua vida e descobre-as nas entrelinhas.
Odeio-te.
Odeias-te a ti próprio.
Cala-te.
Só tu me podes calar.
Cala-te!
Só tu me podes calar.
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| Friday, 1-Oct-2004 00:00 |
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Pena
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Ele e ela caminhavam pelo areal.
Em silêncio ouviam-se melhor.
Então, decidido, ele estacou o passo, voltou-se para ela e disse:
- O meu pai e a minha mãe passaram grande parte do casamento deles a discutir. Quase arrisco dizer que, a partir de certa altura, discutir se tornou o desporto deles. Recordo-me, por exemplo, de estar deitado na minha cama e ouvi-los a discutir qual deles iria morrer primeiro. A minha mãe a gritar “Tu hás-de ser a minha morte! Hás-de dar cabo de mim!” E o meu pai a responder “Não, tu é que hás-de ser a minha morte. Eu hei-de morrer primeiro, por tua causa! Tu é que hás-de enterrar-me!” E a minha mãe “Não, eu é que vou morrer primeiro!” E o meu pai “Eu é que vou morrer primeiro!”O meu pai ganhou. Ele morreu primeiro. A minha mãe morreu alguns anos mais tarde, sem nunca se ter refeito completamente do fracasso dum casamento que lhe arruinou a vida.
Ela replicou sem o olhar nos olhos:
- Lamento. Mas eu não quero morrer nem antes nem depois de ti, queria simplesmente viver ao teu lado.
- Querias? Porquê o pretérito imperfeito?
- Porque já não sei… Começo a ter a sensação de que a nossa relação não é mais do que efectivamente um pretérito imperfeito.
Ele deixou pender a cabeça. E, ou por estar a olhar para o chão, ou por experimentar grande dificuldade no que dizia, as palavras sumiram-se nos ouvidos dela:
- Sei que viver comigo não tem sido fácil, mas, acredita, eu amo-te… Eu amo-te verdadeiramente…
Ela fixou-o nos olhos:
- Eu também costumava dizer que não tinha medo do escuro, mas, no meu íntimo, a escuridão apavorava-me. Ainda hoje, quando tu estás a trabalhar fora, não consigo dormir sem uma lâmpada acesa. O escuro e a solidão são uma combinação fatal. E tu és a solidão e eu a escuridão.
- Eu sou a solidão?
- Nunca me consigo sentir verdadeiramente acompanhada quando tu estás comigo. Tu tornaste-te simplesmente no meu espanta espíritos contra o fantasma da escuridão e eu sou o caçador de sonhos a que tu recorres para expulsar o pesadelo da solidão.
O silêncio estendeu uma cortina invisível entre ele e ela. Ela foi a primeira a afastá-la com as palavras:
- Temos que decidir se continuamos a viver juntos ou se é aqui que os nossos destinos se separam.
Ele espreitou também para além da cortina com as palavras:
- E temos de decidir agora?
Ela repôs a cortina com um murmúrio quase inaudível:
- Sim.
Ele sentou-se na areia, a olhar para os indolentes avanços e recuos das ondas ao sabor da maré.
Sentiu lágrimas a crescer dentro de si, como ondas sem regresso, que desertassem daquele instante e não dele próprio.
Olhou para o chão e, num sorriso enigmaticamente mal desenhado, comentou.
- É uma pena…
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| Saturday, 25-Sep-2004 00:00 |
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Eco
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Pedro e Inês…
Os amantes eternos…
A história de amor perfeita: arrebatadoramente maior que a vida e com o final dramaticamente infeliz que nem a mais maquiavélica das mentes poderia alguma vez maquinar.
Pedro e Inês…
O tempo passou por eles, implacável e imperturbável – por um momento desenhou um círculo em volta deles, marcou-os e seguiu.
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Na minha cabeça ouço o ruído de papel a ser rasgado – cortando a centenária paz destas velhas paredes, ampliando-se e perpetuando-se através dum eco sinistro que só este local proporcionaria.
Sempre que me lembro do nosso último encontro e das palavras que então trocámos, ouço o ruído de papel a ser rasgado.
Na minha cabeça ouço o ruído de papel a ser rasgado (uma folha de papel rasgada por ti), como se rasgassem a bandeira dum país amaldiçoado, eu dum lado, tu do outro – amaldiçoados pelas leis dos homens e de Deus: para sempre apartados.
O tempo passou por nós, implacável e imperturbável – por um momento desenhou um círculo fora de nós, marcou-nos e seguiu.
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Eu não sou uma folha de papel, eu não sou uma folha de papel.
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| Wednesday, 22-Sep-2004 00:00 |
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Desmarcação
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As pessoas são como balões coloridos.
Cor. Movimento. Plenitude.
Eu sou um balão negro a bailar aos caprichos do momento e do acaso.
Estou a mover-me, estou a subir, estou a cair.
Estou a dar um passo em falso para o meio do nada.
Nada me prende, nada me agarra, nada me segura.
Estou a pairar, não tenho peso.
Eu sou um joguete nas mãos do destino.
Eu sou eu, eu sou toda a gente, eu sou Deus.
Estou a flutuar, estou a levantar, estou a voar.
Estou a subir, a subir, subir.
Eu vou rebentar.
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| Sunday, 12-Sep-2004 00:00 |
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Selo
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Guardo esta imagem como selo da carta que não me decido a enviar-te.
Uma imagem à imagem da minha vida.
Cinzenta, inóspita, estéril – como é a minha vida sem ti.
Sabes que eu sei o teu nome – e ele sabe a mel dentro da minha boca.
Tu também sabes o meu nome.
Já ouviste pessoas a chamar-me, lá na cantina da escola. Foi por essa via, de resto, que eu fiquei a saber o teu nome.
Gostava que soubesses como senti a tua falta durante as férias do verão, enquanto a escola esteve fechada.
Não te pude ver durante todo aquele tempo…
Mas agora voltaste…
E eu sei que tão cedo não voltas a partir…
Ainda falta um ano para a escola encerrar novamente para férias de verão.
Até lá, pode ser que eu me decida a escrever-te finalmente a tal carta que ando sempre a redigir mentalmente.
Pode-se entregar uma carta através de palavras?
Chegar ao pé duma pessoa a meio dum intervalo e dizer-lhe o que está escrito na carta que ainda agora fui colocar no marco do correio das minhas intenções?
Não sei, não sei…
De qualquer forma não tenho o teu endereço e desconheço o código postal para o teu coração.
Só tenho um selo, para colar com a minha saliva à boca que talvez estremeça com as palavras que eu lhe quero confiar.
O ideal era eu ter o teu mail…
A Internet facilita tanto as coisas às pessoas…
Já não me lembro da última vez que fui ao banco espaço físico. Faço sempre tudo no site do banco: carregamento do telemóvel, pagamentos, etc, etc.
Já não me lembro a última vez que comprei um jornal de papel… É aos jornais digitais que recorro se quero saber o que se vai passando mundo, a crítica a este ou aquele filme, a crítica o jogo da selecção, etc, etc.
A Internet simplificou miraculosamente a vida das pessoas.
Se eu tivesse o teu mail de certeza que tudo seria mais simples!
Podia finalmente enviar-te a bendita carta que venho ditando às entranhas da minha alma. Era só encher o rectângulo branco-éter de caracteres e clicar com o rato no ENVIAR.
Sim, esse terá de ser o próximo passo.
Primeiro descobri o teu nome, agora tenho de descobrir o teu mail.
Guardo esta imagem como anexo do mail que não me decido a enviar-te.
Uma imagem à imagem da minha vida.
Cinzenta, inóspita, estéril – como é a minha vida sem ti.
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| Friday, 10-Sep-2004 00:00 |
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Matriz
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Sempre gostei de observar as outras pessoas. Às vezes estava num café a ver o telejornal, por exemplo, e não consigo resistir a olhar para trás e observar a cara dos outros espectadores.
A melhor forma de “apanhar” uma pessoa é quando ela não está à espera – quando está completamente desprevenida e à mercê da nossa curiosidade.
Foi assim que “apanhei” o meu falecido marido. Ia a atravessar uma rua movimentada e reparei num homem alto de olhar inteligente – não o inteligente de saber muitas coisas, mas o inteligente de saber lidar com a vida. Quando os olhos dele caíram sobre os meus, eu percebi logo que nos íamos casar.
Eu apanhei-o e depois apanhou-me ele a mim.
Mas isso foi há muitos anos atrás. Muito antes dos médicos me receitarem para os meus problemas de reumatismo umas belas férias na praia da Consolação.
A melhor forma de “apanhar” uma pessoa é quando ela não está à espera – quando está completamente desprevenida e à mercê da nossa curiosidade.
Aprendi sempre mais sobre as pessoas a observá-las do que a conversar com elas.
Podia levantar os olhos e observar o grupo de crianças ruidosas ali à minha esquerda ou apreciar disfarçadamente o grupo de rapazes e raparigas da minha idade um pouco atrás de mim.
Acho que a verdadeira velhice chega quando desistimos das pessoas – quando elas deixam de nos cativar e surpreender a cada instante.
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| Tuesday, 31-Aug-2004 00:00 |
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Um passeio no parque
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Um passeio é sempre uma coisa que me acalma e relaxa profundamente. E é uma forma como outra qualquer de passar o tempo.
Olho as estátuas espalhadas pelo parque.
Não parece que aquela se mexeu?
A minha vida é demasiado pequena para me escapar um pormenor que seja.
EU IA JURAR QUE AQUELA ESTÁTUTA SE MEXEU.
Lembro-me instintivamente daquele jogo das estátuas que jogava em criança.
Como é que era aquilo?
Esperem… já me lembro!
Os meus colegas da escola alinhavam-se na vedação da escola e eu voltava-me de costas e contava
- Um, Dois, Três, Macaquinho de Chinês!,
virando-me repentinamente para eles.
Todos os que eu via ainda a mexer saíam do jogo.
Então eu virava-me outra vez, contando:
- Um, Dois, Três, Macaquinho de Chinês!,
e voltava-me o mais depressa possível, pois ganhava o que conseguisse petrificar-se sucessivamente até tocar na parede onde eu amochava para contar, destronando-me.
E eu queria prolongar ao máximo o jogo, pois, quando eu trocasse de lugar com o vencedor, nunca conseguiria chegar à parede.
Nunca consegui ganhar.
A minha sorte era a escolha para o primeiro jogo ser feito por ordem alfabética.
E se eu jogasse agora com estas estátuas? Ainda fecho os olhos para começar a contar
- Um, Dois, Três, Macaquinho de Chinês!,
mas reparo a tempo no casal que se aproxima com um bebé, também no seu passeio diário.
Coço o queixo como se estivesse a pensar numa coisa qualquer muito importante e recomeço a andar.
Era divertido aquele jogo.… Já não me lembrava dele há uma data de anos. Era quase como se estivesse esquecido… Mas eu nunca me esqueço de nada.
A minha vida é demasiado pequena para eu me esquecer do que quer que seja.
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| Thursday, 26-Aug-2004 00:00 |
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PRINCIPIOS DE ESTAÇÃO I
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Olá Primavera
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Olá primavera.
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O ciclo reabre-se dentro de si próprio – isto não é um princípio, mas sim um recomeço.
Apesar de todas as resistências, o branco pálido do mundo transforma-se numa multidão de cores com a chegada do azul do céu.
As flores explodem por toda a paisagem, renovando os dias e os olhos de quem passa.
Poderei dizer que estes dias são uma casa com janelas para a vida, mas sem portas por que sair?
Por um instante acredito estar perante uma terrível sensação de dejá vu, como se o tempo na minha vida não fosse contínuo, mas sim circular – estando eu condenado a viver para sempre a mesma idade de juventude e inconsequência, impedido de crescer, de amadurecer, predestinado a cometer os erros de sempre ainda uma e outra vez… ad eternum…
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Algum zelador incógnito do grande circo do mundo, trocou as pilhas que mantém em funcionamento as câmaras deste circuito fechado que é a minha existência.
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| Wednesday, 25-Aug-2004 00:00 |
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PRINCIPIOS DE ESTAÇÃO II
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Férias de Verão
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O Verão espreita…
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O calor instiga todos a largarem tudo o que estão a fazer e acorrerem em romaria às praias.
Como formigas, as pessoas saltitam sobre a areia a ferver, para mergulhar na frieza do mar litoral oeste.
Outros mais avisados tomaram o caminho do sul.
Os dias passam sem pesar, apesar dos pesares de cada um.
As noites são quentes, os amores escaldantes… breves, mas escaldantes... à semelhança de fósforos que se consomem a si próprios numa vaga e vã promessa da eternidade.
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Se alguém dissesse que estes dias têm o tempo contado, provavelmente acabaria linchado pela populaça.
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| Tuesday, 24-Aug-2004 00:00 |
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PRINCIPIOS DE ESTAÇÃO III
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Sorte
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O Outono chegou.
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As árvores começam a perder as folhas, como anciões que perdem os cabelos.
O vento arrasta a sobriedade dos tons que caíram dos ramos das árvores, sacrificados a um desígnio superior para quem a beleza não é um fim mas antes um meio.
O odor da terra é o segredo da fórmula da própria vida.
As texturas do Dia são a tristeza das mágoas mal guardadas da Noite.
Estes são os primeiros sinais de decadência – a idade transitória para uma era glacial que transformará irremediavelmente a face do planeta.
O chão molhado reflecte as cores dum arco-íris imaginário a quem o sol roubou a alma.
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Todas as palavras se conjugam já no tempo do verbo morrer… mas soletram-se ainda com um ligeiro tom de esperança… como se morrer e renascer fossem só uma e apenas a mesma coisa.
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