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| Wednesday, 27-Oct-2004 00:00 |
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Na tarde que se esvai I
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Depois de mais um dia de trabalho em Peniche, resolvo dar uma pequena volta pelo Cabo Carvoeiro antes de voltar à Benedita.
O cansaço é substituído por uma inesperada vivacidade que desperta todos os meus sentidos.
Atraído pela luz e pela sombra da tarde que se esvai, sinto um desejo irresistível de parar o carro e vaguear um pouco por entre as insólitas formações rochosas, laboriosamente esculpidas ao longo de eras pela acção de todos os elementos trabalhando em conjunto.
Este lugar é realmente algo de mágico e fascinante – sentimos como que o toque da eternidade, a envolver-nos no doce e suave segredar do mar.
Perder-nos aqui, por entre as ondas e os penhascos, poderia facilmente atirar-nos para fora do tempo e do mundo.
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| Tuesday, 26-Oct-2004 00:00 |
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Na tarde que se esvai (Prólogo)
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Acordei o sol para me iluminar.
Corro sem destino à espera que a noite caia.
Então convidarei a lua para dançar sobre os meus sonhos.
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| Monday, 25-Oct-2004 00:00 |
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A Árvore da Vida
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A árvore da vida crescia na encosta sagrada, guardando agora e sempre os segredos da Criação.
Um dia os homens pensaram envolvê-la com uma muralha que a protegesse de toda e qualquer agressão.
Sonharam erguer um muro de altura tal, que rivalizasse com as nuvens.
Deitaram mãos à obra, mas depressa se desentenderam sobre a melhor forma de levar o projecto a bom termo.
O sangue derramado foi recolhido pela terra, saciando a sede às raízes sagradas.
Quem suba à encosta pode ainda hoje observar o esboço da grandiosa empresa.
O orgulho será, talvez, a mais infame das emoções humanas.
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| Sunday, 24-Oct-2004 00:00 |
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Elogio da melancolia
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– Às vezes gosto da sensação de me sentir triste. – Interrompeu ela o silêncio.
– O que é que tem de triste este momento? – Admirou-se muito o rapaz.
– Nada. – Concordou a rapariga. – Lá está… Este é um momento perfeito. Estamos juntos e assistimos a um pôr-do-sol maravilhoso. Mas…
– Mas?… – Levantou o rapaz o sobrolho.
– Mas às vezes é bom podermos sentir-nos tristes no meio da alegria. – Encolheu ela os ombros.
– Queres dizer que é sinal de que estamos felizes? – Aventou ele, depois de pensar um bocadinho. – Que se estivéssemos infelizes não teríamos vontade nenhuma de nos sentirmos tristes?
– Talvez… – Hesitou ela.
– Então queres dizer o quê, princesa? – Questionou ele cada vez mais intrigado.
– Quero dizer que… – E a rapariga vacilava.
– Sim?… – Encorajou o rapaz.
– … às vezes gosto da sensação de me poder sentir triste.
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| Thursday, 21-Oct-2004 00:00 |
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A Sombra Branca
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E inadvertidamente ocorreu-me a mais singular das ideias: as nuvens são uma sombra branca de tudo o que existe à face do planeta.
Assim represente a sombra negra, presa aos nossos pés pela força da gravidade, o pior de todas as coisas, assim representará, livre lá nas alturas, a sombra branca o melhor de tudo – pairando, sem grilhões de qualquer espécie às impurezas da terra.
Qual destas duas sombras será a verdade das coisas, dos objectos, de nós?
A verdade somos nós – o que estamos no meio, balançando entre as trevas a nossos pés e a alvura muito acima de nossas cabeças.
Somos disputados pela escuridão e pela luz, hesitando entre a terra e o céu, entre o inferno e o paraíso: qual ganhará no fim?
A noite é a ancestral trégua desse conflito primordial.
A partir de hoje vou prestar redobrada atenção aos céus – mal posso esperar pelo momento em que reconheça bem lá em cima a minha sombra branca … resplandecendo aonde o ar custa mais a respirar, mas onde a luz é mais abundante…
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| Tuesday, 19-Oct-2004 00:00 |
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Fogo na Terra e no Mar
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Fogo na terra e no mar.
Um tom acima de vermelho.
Uma palavra a menos na minha garganta.
Não… Vou começar outra vez…
Fogo. Ar. Terra. Mar.
Os quatro elementos queimando dentro e fora.
Combustão fulminante, incinerando, carbonizando tudo o que sou.
E fico a cismar…
Tento olhar para dentro, ver por dentro o que vejo por fora, ver as chamas a brincar com as minhas vísceras, tocar o fogo na minha alma, acariciar a labareda semeada no meu espírito. Viro os olhos do avesso. Mergulho fundo nas minhas entranhas. Procuro-me. Busco-me. Ofereço uma recompensa a quem denuncie o meu paradeiro. Persisto. Não desisto. Localizo-me, finalmente. Encontro-me. Ainda que encontre apenas cinzas.
Cinzas.
Cinzas apenas.
Apenas cinzas.
Fogo fátuo… Não demorou muito mais do que o mísero instante que predestina uma pequena eternidade de padecimentos e mortificações.
Fogo pretensioso que ousa sonhar-se mais do que uma mera fagulha no meio do nada.
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| Sunday, 10-Oct-2004 00:00 |
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Forte da Luz
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As ruínas do Forte da Luz.
O Forte da Luz… o último reduto da Luz a cair perante os infindáveis exércitos das Trevas.
Imagino a batalha final que ditou enfim o desfecho da eterna guerra entre a Luz e as Trevas…
No entanto, o sol brilha, o mar continua no seu eterno murmúrio e o céu ainda é azul.
Como pode isso ser, depois da guerra ter tomado tão pavoroso rumo?
Não deveríamos nós viver agora uma noite perpétua?
Talvez a mais terrível das derrotas seja quando, ao invés de nos reclamarem a terra debaixo dos pés, plantam a dúvida no fundo das nossas certezas…
Forte da Luz.
Esconderijo da luz.
Fortificação.
Luz forte.
Arruinada.
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| Friday, 8-Oct-2004 00:00 |
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Mudança de tempo
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- O tempo vai mudar… O tempo muda sempre.
- Mesmo quando não muda?
- Especialmente quando não muda, pois então não mudou, logo houve uma mudança.
- Este tempo também apagará todas as mágoas?
- Acho que não, acho que este tempo simplesmente se esquece de nós.
- E o outro tempo, achas que apaga todas as mágoas?
- O outro tempo rima com esquecimento, mas está mais próximo da saudade do que da vida.
- Gostava que começasse a chover…
- Sim, isso seria agradável, para uma mudança…
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| Wednesday, 6-Oct-2004 00:00 |
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Extirpado
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– Sabes… – Começava ele.
– Sei. – Interrompeu-o ela, sorrindo maliciosamente.
– Sabes o quê? – Interrogou-a ele, franzindo o sobrolho.
– Isso que tu ias dizer. – Explodiu ela numa gargalhada.
– Lá estás tu… – Impacientou-se ele.
– Pronto, pronto. Vou agir como uma menina bem comportada. – Levantou ela as mãos rendendo-se numa falsa solenidade, mordendo os lábios para não rir mais. – Diz lá.
– Às vezes, quando não estou contigo, sinto coisas inexplicáveis. – Declarou ele.
– Coisas inexplicáveis? – Espantou-se ela.
– Sim, sabes…
– Sei. Oops! Desculpa. Não consigo resistir. – Tapou ela a boca. – Tentavas explicar-me as coisas inexplicáveis…
– Pois… – Atrapalhava-se ele com a interrupção. – Sentimentos de incompreensível euforia, estados de tristeza sem qualquer razão ou fúrias repentinas.
– Hmm??? – Coçou ela o queixo.
– Antes de te conhecer isso não acontecia. – Tentou ele esclarecer. – Quer dizer, às vezes, muitas vezes até, sentia-me eufórico, triste ou furioso, só que sabia porque razão estava a sentir o que sentia. Desde que tu entraste na minha vida, acontece-me ser assaltado por sensações imprevisíveis. É um pouco como se essas emoções caíssem dos céus sobre mim aos trambolhões. E … sabes o que eu acho que isso é?
– Não, isso não sei. – Suspendia ela a respiração.
– Descobri a razão um destes dias, quando de repente, fortuitamente, dei comigo mergulhado num estado de tristeza tão profundo quanto inesperado, pois segundos antes sentia-me perfeitamente bem. Senti-me tão mal que te telefonei, lembras-te?
Ela inclinou ligeiramente a cabeça para a esquerda, interrogativa.
– Tu tinhas acabado de acordar e dizias ter tido um sonho muito, muito mau. – Tentou ele situá-la. – Recordas-te?
Ela acenou afirmativamente a cabeça.
– Foi nesse instante que todas as peças do puzzle se encaixaram… Eu acho que, essas coisas inexplicáveis,que eu sinto quando estou longe de ti, é aquilo que tu estás a sentir nesse preciso momento, estejas tu onde estiveres… É como se tu estivesses comigo mesmo quando não estou contigo…
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| Tuesday, 5-Oct-2004 00:00 |
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Sinal
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Acho que é desta que eu vou mesmo partir.
Desta é que eu me vou.
Estou realmente farto de tudo isto…
Estou farto da hipocrisia humana – parece que, quanto mais evoluída e tecnologicamente perfeita se encontra a civilização humana, mais ignorantes, mesquinhos e bestiais se revelam os homens.
Nada parece ter sentido – mas tem.
Em tempos, também eu me dei ao trabalho de procurar um sentido para a vida, mas, a verdade, era muito mais simples do que eu alguma vez poderia ter imaginado: o sentido da existência humana é apenas produzir, comprar e transaccionar bens, produtos e serviços.
Nada mais.
Tudo se resume à produção em série de coisas, ideias e objectos que, mais tarde, temos também de adquirir, salvaguardando, por um lado, o escoamento da produção, e, por outro, o bem estar geral da grande colmeia humana.
Este é o único sentido para as vidas que levamos.
Eu também já tive a minha quota parte da fúria consumista que ameaça desmembrar este mundo, só que, um dia, olhei à minha volta e, como por magia, rendi-me à evidência.
A chave de tudo foi a publicidade. Um dia estava a olhar para um outdoor duma grande superfície de mobiliário e pensei que era aquela sala de estar que eu devia ter lá em casa.
E então reparei que a publicidade me dizia como me devia vestir, que telemóvel devia usar, que carro devia comprar, que centro comercial devia frequentar, que tipo de pessoa eu devia ser – pois não ter é não ser.
Fiquei muito zangado ao compreender que me andavam a mentir há vinte e cinco anos ao prometerem a felicidade em troca do compromisso consumista.
Apercebi-me que, não se tornando uma nova religião, o consumo, se tornara, pelo menos, o novo ópio do povo.
E o cachimbo para o fumar é a omnipresente publicidade, que nos faz acreditar que tudo está à venda – inclusivamente nós próprios (se ficasse por aqui, qualquer dia ainda acabava a interrogar-me sobre qual seria o meu preço).
Mas o pior de tudo foi verificar que a publicidade nivelara por baixo, estereotipara, tudo aquilo que eu mais gostava…
Estava farto de ver filmes de Hollywood pisando e repisando as mesmas fórmulas de há 20 anos atrás.
Estava farto de ver a indústria musical a tentar reduzir o espectro sonoro a um paupérrimo mainstream globalizado.
Estava farto da indústria do futebol, que reduzira o jogo a um mero pretexto para movimentar dinheiro.
E tudo porque os filmes têm de ser vistos, os discos têm de se vender e os jogos de futebol têm de gerar receitas.
E então não restou nada à minha volta, pois das pessoas já eu desistira muito antes.
Concluí que não tinha nada a ver com o mundo em que vivia.
Eu não pertencia ali – provavelmente nunca pertencera.
A minha propensão natural para a solidão impôs-se-me como uma vocação tardiamente descoberta.
E agora, finalmente, posso partir.
O barco está pronto. A despensa atestada de víveres. O rumo está traçado na carta: uma volta ao mundo em pouco menos de três anos.
Três anos da minha vida…
Sem contar os seis que andei a trabalhar com o sonho de ver chegar este dia.
Há seis anos que vivo em função deste dia. Este dia que também foi ontem. Este dia que também foi antes de ontem e o dia anterior e o anterior a esse.
A verdade é que desde há uma semana que, depois de me despedir do meu emprego e de ter vendido o apartamento, vivo no barco, porém, nunca mais me decido a partir.
Porquê?
Nada nem ninguém me prende aqui.
Porquê todas estas reticências em partir?
Não era isto que eu queria? Era. Não tenho dúvidas que isto era o que eu realmente queria. Então porquê continuar a adiar o inadiável? Eu vou acabar por partir, infalivelmente, parta mais tarde ou mais cedo.
Acho que preciso dum sinal…
Um sinal…
Um sinal…
Um sinal.
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