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| Wednesday, 22-Dec-2004 00:00 |
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Momentos
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Palavras… As palavras são meras palavras, nada mais.
As palavras são como crianças brincando às escondidas com aquilo que realmente queriam significar.
As palavras rouba-mas o tempo… embora mas devolva, ocasionalmente, em tardes como esta, dolentes e amenas… entre estações… quando o coração aperta e a voz se esconde atrás do pensamento e o pensamento se esconde atrás da memória.
E as palavras dançam dentro de mim, uma coreografia fora do tempo e do espaço… assombram a casa vazia que se tornou o meu ser… rodopiando no nada…
Conseguem ouvi-las?
Sempre pensei que seria o primeiro a partir. Viste onde é que eu deixei o relógio? Não tem nada que enganar, desce esta rua e corta na primeira à direita. Queres casar comigo? Meu Deus, protege-me a mim, ao meu pai, à minha mãe e ao meu irmão, e faz que o meu pai deixe de beber e que eu e o meu irmão quando formos grandes tiremos um curso para a minha mãe ficar contente. É tarde, já é demasiado tarde. Que horas são? Infelizmente para mim, tenho um fraquinho por causas perdidas. Mãe, porque é que as coisas morrem?
Já não sei se fui eu que as disse, se simplesmente as pensei, se as ouvi a outro alguém, ou apenas as imaginei… Limito-me a assistir ao caótico baile das suas belas mas terríveis descoordenações.
Ah!… Se as palavras pudessem falar…
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| Thursday, 11-Nov-2004 00:00 |
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Torres
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O homem constrói as torres para se aproximar do céu; mas as torres afastam o homem de Deus.
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| Monday, 8-Nov-2004 00:00 |
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Na tarde que se esvai (Epílogo)
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Outra tarde, o mesmo lugar. O que mudou desde a minha última visita?
Mudou a hora, o dia, o próprio eixo da terra na sua paciente viagem em torno do sol – mudou a luz e a sombra.
Eu sou já também outra pessoa.
Em mim luz e a sombra mudaram também.
Eu sou a elipse dum incerto e vago movimento à volta do nada.
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| Sunday, 7-Nov-2004 00:00 |
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Na tarde que se esvai VII
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Se continuássemos a procurar com atenção, encontraríamos ainda pela tarde que se esvai, muito mais coisas.
Mas a luz começa a deixar lugar apenas para as sombras.
A tarde esvai-se rápida e completamente.
A noite aproxima-se a passadas largas e eu tenho ainda muitos quilómetros para fazer até chegar a casa.
É hora de eu voltar.
A tarde esvai-se rapidamente, eu esvaí-me também mais um pouco.
Deixei aqui um outro bocado de mim.
Boa tarde, boa noite, bom dia.
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| Saturday, 6-Nov-2004 00:00 |
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Na tarde que se esvai VI
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Se calhar não convém fazer muito mais barulho para não continuarmos a importunar o senhor Hitchcock.
Mas, se mantivermos ainda a atenção, concerteza encontraremos, aqui, na tarde que se esvai, outras coisas intrigantes e deslumbrantes.
Convido-vos a interpretar as silhuetas destes penhascos captadas em contraluz.
Mas sem fazerem muito barulho, se fazem favor…
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| Friday, 5-Nov-2004 00:00 |
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Na tarde que se esvai V
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Porém, os gárgulas que acabei de descobrir no meio da tarde que se esvai, são muito, muito diferentes: não provocam medo, apenas um fascínio pueril e apaixonado.
Imagino as suas conversas, arrastando-se pela tarde fora… quase consigo ouvir as palavras que trocam para além do silêncio da tarde que se esvai:
- …ainda assim, continuo a achar que o Sporting este ano não tem grande plantel. Tirando o Liedson que ponta de lança temos no plantel? Nenhum. Mas a situação é pior que isso! Atente neste exemplo: dispensaram o Silva e o Lourenço e em troca compraram o Pinilla, que ainda não marcou qualquer golo.
- Mas olhe que o Pinilla não é mau. Deixe o miúdo marcar o primeiro golo e estou certo que os outros virão em catadupa.
- Pfff!… Não me parece.
- É uma questão de paciência, amigo. E olhe que se há coisa que se pode dizer dos sportinguistas é que têm paciência.
- Aí tenho de concordar com o meu caríssimo amigo…
Entretanto, Hitchcock (conseguem ver o nariz e a testa dele lá em baixo?) exclama:
- Gentlemen, please!!! I need to rest!
E os nossos bons gárgulas desculpam-se envergonhados:
- Aaaah!… Desculpe senhor. Calamo-nos já.
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| Thursday, 4-Nov-2004 00:00 |
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Na tarde que se esvai (Interlúdio)
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E, numa vertigem, senti-me transportar para uma outra tarde que se esvaiu rapidamente junto ao Mosteiro da Batalha.
Ninguém me convence que aqueles gárgulas naturais não são aparentados de alguns dos gárgulas de forma demoníaca que ornamentam o Mosteiro: assombrosas criaturas que aterrorizaram gerações e gerações de homens, que viveram e morreram na sombra dum medo canibal que se alimentava do próprio medo.
Pedra é pedra – seja ou não transformada pela fantasia do homem.
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| Wednesday, 3-Nov-2004 00:00 |
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Na tarde que se esvai IV
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Se procurarmos com atenção, continuaremos a encontrar aqui, na tarde que se esvai, ainda um pouco de tudo.
Juro que algumas destas figuras, esculpidas pela natureza por intermédio das inestimáveis ferramentas do vento, chuva e mar, me recordam exactamente os gárgulas que despejavam a água dos telhados dos mosteiros e catedrais góticos.
Durante anos e anos foi reservada a esses seres medonhos a humilhação de servir os propósitos dos homens em nome de Deus – estendendo uma ponte entre o humano e o divino.
Estranhos gárgulas naturais…
Talvez estes tenham sido, séculos atrás, o molde para muitas dessas figuras quiméricas.
Gárgulas...
Gárgulas naturais.
Monstros ou anjos disformes?
Talvez não sejam mais do que corações de ouro enclausurados em corpos horrendos…
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| Friday, 29-Oct-2004 00:00 |
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Na tarde que se esvai III
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Hitchcock resting in Cabo Carvoeiro
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Realmente, não há dúvidas!!! Se procurarmos com atenção, encontraremos aqui, na tarde que se esvai, um pouco de tudo.
Até podemos encontrar Hitchcock aproveitando os últimos raios de sol para dormir uma soneca revigorante, que isto de estar morto tem muito que se lhe diga.
Era de supor que o Além não fosse suficientemente entusiasmante e desafiador para o grande cineasta.
Sigamos em frente, deixemos repousar o mestre do suspense.
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| Thursday, 28-Oct-2004 00:00 |
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Na tarde que se esvai II
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Se procurarmos com atenção, encontraremos aqui, na tarde que se esvai no Cabo Carvoeiro, um pouco de tudo.
Avistamos, por exemplo, o momento imediatamente a seguir ao choque iminente entre dois aviões.
De que se trataria? Duma brincadeira inconsequente de dois experimentados pilotos? Duma complexa e delicada manobra militar? Ou simplesmente dum assomo de reveladora cobardia no momento fatal?
Eu não sei, o mar não sabe, as rochas não sabem… os pilotos saberão?
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