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| Tuesday, 1-Feb-2005 00:00 |
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A vida usa uma máscara!!!
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A vida usa uma máscara!!!
A vida usa uma máscara?
Se a vida realmente usa uma máscara talvez não seja completamente despropositado e disparatado eu começar a pensar deixar de usar as minhas máscaras.
Onde será que a vida comprou a dela?
Não precisará ela por acaso de outras máscaras?
Uma para cada ocasião, quem sabe?
Um sorriso deslumbrantemente cintilante – a forma perfeita de iludir e dissimular o que realmente nos passa na alma e no espírito.
Um semblante neutro a ponto de ser passível de utilização em qualquer ocasião, desde um baptizado, um casamento a um funeral – um instrumento de sucesso em todo o evento social.
Um rosto calmo, relaxado e ponderado para conquistar a confiança alheia, tanto a nível profissional como pessoal – meio caminho andado para um dia a dia sem grandes sobressaltos.
Se a vida quiser, eu faço-lhe um preço especial pelo pacote das três máscaras.
Não é levar muito caro, pois não?
Será que a vida usa cartão visa? A mim convinha-me mais dinheiro vivo. E não, não passo factura.
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| Monday, 31-Jan-2005 00:00 |
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Museu Universal da Música VI
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Cítola (Séc. XII)
Reconstituição baseada na escultura dum anjo músicoque se encontra na Catedral de Parma.
Construtor - Orlando Trindade (contacto: orlandotrindade@hotmail.com).
Anjos descem à terra sempre que se verifica o movimento melodioso de dedos alados sobre as cordas da Cítola.
Tantos artificies são necessários até ser chegado esse momento… o lenhador que abateu a árvore de que foi talhada a madeira; o matador que desferiu o golpe fatal no animal de que se extraíram as cordas; o artesão que paciente e hábil deu corpo ao instrumento; músicos sem conta (uns mais virtuosos do que outros) que lhe oferecem a alma sempre que lhe fizeram trinir as cordas.
Tantos e tão talentosos… Para a peça terminar nas mãos dum único e só coleccionador… que não sabe uma nota de música… Gostaria de pensar que para coleccionar também é necessário possuir um dom muito especial…
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| Saturday, 29-Jan-2005 00:00 |
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Museu Universal da Música V
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Vários instrumentos de percussão de diversas épocas. A saber: Tímbalo para marcar o ritmo, Matracas para fazer estalar os ossos dos espectros, Guizeira para afugentar esses mesmos espíritos e Címbalos para se infiltrar fundo, tinindo desde os ouvidos até à raiz da alma.
Às vezes quase que podia jurar conseguir ouvir uma companhia fantasma a utilizar estes mesmos instrumentos… percorrendo o nevoeiro por entre campos e vales, esgueirando-se pela praça de todas as aldeias duma terra perdida no tempo e no espaço.
Não a vejo nunca, sinto-a apenas… no nevoeiro…
Por vezes, a minha companhia convoca espontaneamente em seu redor uma procissão para esconjurar a peste negra; noutras ocasiões anuncia alegremente a chegada dos saltimbancos para gáudio do povo.
Nunca me soa de igual maneira.
Estranho, se consideramos que não são propriamente os instrumentos mais versáteis alguma vez concebidos pelo homem.
E, no entanto, ouço-os em uso de mil expressões do extâse e do grotesco…
Vários instrumentos de percussão de várias épocas… Indispensável a quem queira coleccionar sonhos e pesadelos.
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| Thursday, 27-Jan-2005 00:00 |
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Raízes
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Desenraizada… caída sobre o peso dos anos, esmagada pelo peso da saudade.
Raízes expostas às inclemências do clima e do tempo.
O vento morde mais fundo do que qualquer machado.
As horas queimam mais do que qualquer fogo.
Vejo as minhas irmãs, logo ali, à meia dúzia de passos que a derrota me impede de percorrer. Elas ali, viçosas e frondosas.
Eu práqui… abandonada, desprezada, horizontal.
Tombada… sem esperança.
O musgo e os líquenes expandem-se sobre mim, um pouco como as algas e os fungos se espalham sobre o destroço arruinado dum navio naufragado no oceano do esquecimento – corroendo, deteriorando, comendo mais um bocadinho todos os dias.
As folhas desertaram-me. Foram as primeiras a abandonar o navio, deixando-me à mercê das minhas próprias amarguras e lamentações.
Devo eu partir também?
Partir… Se ao menos ainda fosse possível partir…
Encontrar… Encontrar qualquer coisa, um caminho quem sabe, um sentido talvez, o sentido único que conduzisse a um amanhã.
Acordar… reerguer-me das memórias.
Pertencer… mais uma vez pertencer…
E será que eu pertenci alguma vez?
A terra ainda salpica as minhas raízes, convidando os caracóis e outras pequenas vidas a tomarem-me por lar. Outrora insignificantes vejo nelas, hoje, o crepúsculo de todo o meu remanescente desejo.
A boa terra ainda não desistiu de mim – desistirei eu de mim própria?
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| Tuesday, 25-Jan-2005 00:00 |
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Museu Universal da Música IV
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Alaúde “Compostelano”
(nome de trabalho; não se sabe exactamente como lhe chamavam).
Século XII (1180).
Reconstituição feita a partir duma das esculturas do Pórtico da Glória situado na Catedral de Santiago de Compostela.
Construtor - Orlando Trindade (contacto: orlandotrindade@hotmail.com).
Mais um instrumento da fase final da Idade Média, o período histórico que se estendeu pelos negros 1000 anos que ligaram a queda do Império Romano do Ocidente e o Renascimento da cultura clássica.
Reconstituição dum Alaúde, instrumento do tempo em que a música era ofício de reis e de poetas – em que as cantigas de escárnio e mal dizer competiam com as d’amigo em popularidade junto do coração das donzelas na corte e os jograis e os saltimbancos reuniam a populaça na praça da aldeia trazendo a magia e a alegria às almas simples.
Diz-se de Dom Dinis, rei de Portugal, que era ao mesmo tempo o maior trovador da sua época.
Bill Clinton não achou que soprar no seu saxofone fosse incompatível com a presidência dos Estados Unidos da América. Mas…
Que diríeis vós se a partir de hoje os debates políticos se fizessem por concursos de perícia musical? Em quem votaríeis vós quando a doce melodia dos antagónicos concorrentes vos inundasse os ouvidos e a alma? Por certo seria muito mais fácil escolher um governante… Hitler e outros que tais nunca teriam chegado ao poder.
Sei o que vos passa pela cabeça neste preciso momento: que sei eu disso, eu que não passo dum mero coleccionador?
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| Wednesday, 19-Jan-2005 00:00 |
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Em ferida
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Em ferida… As minhas paredes ainda não caíram, mas há muito foram abandonadas.
Permanece em uso apenas aquele quarto recôndito, eleito pelos meus demónios como sala de reuniões, onde concertam estratégias sobre as melhores formas de me assombrar.
Em ferida… Avance duma vez a equipa de demolição: a casa está abandonada, mas ainda não está vazia.
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| Monday, 17-Jan-2005 00:00 |
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Museu Universal da Música III
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Eu sou o coleccionador.
Os detalhes, os pormenores, as pequenas minúcias. Muitas vezes podem ser completamente mudos, doutras gritam-me ao ouvido se devo ou não anexar a peça a, b ou c à minha colecção.
A sofisticação e requinte duma peça pode esconder-se na mais pequena das miudezas. Por vezes o exemplo máximo da sofisticação é a simplicidade, o despretensiosismo, mas, na maior parte dos casos, é o pormenor quase invisível a ditar a excelência do espécimen.
Isto que é verdade nos instrumentos musicais, aplica-se também na perfeição às pessoas. Aquele gesto, acto ou pequeno silêncio, denuncia por vezes uma grandeza de alma que não emanaria nem sequer de mil milhões de palavras.
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| Wednesday, 5-Jan-2005 00:00 |
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Museu Universal da Música II
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Harpa Medieval – Século XII
Reconstituição feita a partir duma das esculturas do Pórtico da Glória situado na Catedral de Santiago de Compostela.
Construtor – Orlando Trindade (contacto: orlandotrindade@hotmail.com)
O som da harpa tem sido considerado ao longo dos séculos como algo de sublime, capaz de abrir uma ponte sonora entre o temporal e o intemporal, desbravando caminho até ao divino.
Este exemplar é por isso mesmo singular, pois o transporte para o paraíso é efectuado através das melódicas asas dum dragão, vibrando harmoniosamente pelos corredores do eterno, ao mesmo que tenta devorar-se a si próprio.
Quisera eu saber distinguir o canto dos anjos da voz das grandes feras mitológicas…
Eu sou o coleccionador, esta é uma das peças mais queridas da minha colecção.
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| Friday, 31-Dec-2004 00:00 |
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Dança da chuva das estrelas
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Eu posso parar o tempo, mas não consigo parar o mundo. Eu posso dançar no tempo, mas não consigo girar no lugar do mundo.
Em criança ensinaram-me a pedir um desejo a cada estrela cadente que avistasse no céu… Tenho-o feito muitas vezes, umas vezes favorecido outras desiludido, mas nunca, como hoje, tive todas as estrelas à minha mercê.
Mil e uma estrelas cadentes a quem pedir mil e um desejos nesta noite de viragem do ano… ou escolher apenas uma delas a quem pedir um novo desejo para as próximas mil e uma noites?
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| Wednesday, 29-Dec-2004 00:00 |
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Museu Universal da Música I
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O meu nome? O meu nome não é relevante, o que interessa é o que eu faço.
O que é que eu faço? Colecciono instrumentos musicais de todos os lugares e todas as épocas.
O meu problema? O meu problema é saber se adiciono ou não esta harpa ao espólio da minha colecção.
Digamos que este não é o exemplo mais digno de harpa se comparado a todos os outros que eu tenho visto ao longo da minha vida e que, de resto, fui selectivamente anexando à minha colecção.
A madeira não é da melhor, os acabamentos não são brilhantes. Parece-me mais prática do que virtuosa. Suponho que fosse útil a um músico experimentado pela sua reduzida dimensão e peso, que permitiria transportá-la facilmente dum lado para o outro durante ensaios ou em períodos de composição.
Aqui a questão é que eu (deliciosa ironia) não sei música. Eu que devotei a minha vida a reunir os instrumentos musicais de todos os lugares e todas as épocas, sou um completo analfabeto ao nível da leitura e escrita musical. Uma pauta para mim, mais não é do que uma página tão bela e misteriosa quanto os hieróglifos egípcios ou uma pequena fábula em japonês.
Da música em si não posso dizer outra coisa para além de “Gosto” ou Não gosto”.
Já dos instrumentos posso ser muito mais exaustivo e crítico, e este é sem dúvida um exemplar muito pobrezinho. Já deixei de adquirir harpas muito superiores a esta que se apresenta agora diante dos meus olhos.
Porém… Porém algo me seduz indescritivelmente neste espécime… De que se tratará? Donde virá este irresistível apelo? Não sei se não será simplesmente a sombra que projecta no chão a meus pés… um perfeito coração em Dó maior…
Não sei… não sei… Mas creio que a vou levar… Sim, pode tratar de todas as diligências, eu vou levá-la.
O meu nome? O meu nome não interessa, o que interessa é o que eu faço. Mas podem tratar-me por “O Coleccionador”… Em breve, muito em breve, voltarão a ter notícias minhas.
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