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| Tuesday, 22-Mar-2005 00:00 |
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Escondido nas sombras da noite #2
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É estranho ver o mundo de todos os dias assim, sobrenaturalmente transfigurado.
Ver os locais que os nossos pés percorrem, dia após dia, pincelados de cores e tons jamais imaginados ou sonhados.
Por um momento convencemo-nos de que, afinal, talvez habitemos um recanto de Marte ou doutro planeta qualquer – esta não pode ser a terra, este não pode ser o cenário da minha vida, esta não pode ser a minha casa.
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| Monday, 21-Mar-2005 00:00 |
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Escondido nas sombras da noite #1
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More night shots
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À noite todos os gatos são pardos – diz o povo, naquela infinita sabedoria acumulada ao longo de séculos e séculos de experiência, transmitida de pai para filho, de mãe para filha, de boca para boca, como um beijo condensando a ternura, inteligência e prudência de mil gerações.
Os gatos, pardos ou não, percorrem, ocultos na escuridão, um mundo a coberto de nossos olhos.
Um mundo incógnito, desconhecido, inimaginável.
Um mundo em que os nossos olhos não conseguem tocar.
Inacessível? Talvez não.
Munido duma máquina fotográfica, posso cortar o silêncio da noite e gritar “Mãos ao alto, mundo!” – congelando o tempo dentro do tempo, cristalizando tudo o que acontece no olho mágico da câmara durante escassa meia dúzia de minutos, numa única e profética imagem.
Ah! Mas como me enganei…
Quando os meus olhos tocam finalmente esse almejado mundo, através da imagem, reparo que a descomunal engrenagem cósmica não se deteve por mim ou pela minha máquina.
O tempo parou, mas o mundo continuou a rodar sobre o seu próprio eixo – e trouxe as estrelas no seu rastro, como se as arrastasse com uma trela pela abóbada celeste fora.
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| Friday, 18-Mar-2005 00:00 |
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No deserto
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O deserto é o lugar mais indicado para nos perdermos, quando urge encontrar-nos connosco próprios.
É fácil perder-nos no deserto – não é preciso muito para nos perdermos no deserto.
É num ápice que a mudança de vento altera drasticamente a face do percurso que vínhamos a percorrer. Quando olhamos em volta e pensamos voltar, verificamos que já não sabemos por onde o poderíamos fazer. o calor aperta, a sede aumenta. Prosseguimos, para onde não sabemos.
A beleza do mistério apodera-se-nos sentidos.
Pegadas de animais furtivos, cruzando o trilho que pretendíamos tomar, sobressaltam-nos o espírito. Que género de feras e bestas se escondem para além destas dunas?
A sensualidade do perigo dita as suas leis.
Rezo secretamente para não reencontrar o caminho que me devolva à praia e ao bulício de mais um dia de verão roubado ao Inverno.
A quem é que terei de vender a minha alma para nunca mais sair daqui?
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| Monday, 14-Mar-2005 00:00 |
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Tecto do mundo
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Antes de aspirar fundo o ar vagamente salgado da maresia, olhei em volta desconfiado.
Sentia-me seguido desde já há algum tempo.
Imaginava que, algures lá atrás, muito atrás, ainda na cidade, alguém entrara num táxi e ordenara com voz pausada mas urgente “Siga aquele carro.” Entretanto, os quilómetros sucederam-se, os prédios foram sendo substituídos por casas cada vez mais baixas, até desaparecerem completamente quaisquer vestígios de habitação humana, e a paisagem se resumir a vastas planícies douradas a perder de vista e ao azul límpido do céu.
Apenas o céu e a terra.
Mas aquela desconfortável sensação não me abandonava. Parei diversas vezes, inquieto. Saía do carro e esperava que algo acontecesse. Olhos fixos no horizonte onde se desenhava ainda o mundo que tardava em deixar para trás. Custava-me a acreditar que não estivesse a ser seguido. Será assim tão fácil escapar-me?, questionava-me intrigado. E seguia caminho.
E de repente o mar.
O mar lá longe, no horizonte. Primeiro uma linha ainda indistinta de azul, desenhando a fronteira entre o céu e a terra, e, depois, crescendo, crescendo cada vez mais, crescendo para mim. Percebi que iria alcançar a costa muito antes daquilo que previra, apesar de todas as paragens ordenadas pela minha insuspeita suspeição. Pisaria a areia da praia ainda antes do anoitecer.
A distância diminuía cada vez mais. Sentia que cada nova volta completa das rodas do carro, mais perto me colocava do mar. Percebi que o tempo estava a mudar. Quanto mais me aproximava, mais compactas me pareciam as nuvens empurradas pelos ventos do mar para a terra. Dir-se-ia que a nuvens se apressavam em vir ao meu encontro. O horizonte era agora a indistinta fusão do mar e do céu. Em alguma parte por ali estaria a serventia que ligava o mundo e o céu.
Ali, ou talvez acolá, ou quem sabe além.
Mas nem isto me distraiu da sensação de estar a ser seguido.
Imobilizei o carro e desliguei o motor. Parecia que a minha viagem chegara ao fim. E foi então que a luz brotou por entre o algodão das nuvens.
Saí do carro e caminhei em direcção ao manso rebentar das ondas – sempre espiando por cima do meu ombro.
Fechei os olhos e aspirei profundamente a maresia que serpenteou docemente pelas minhas narinas.
Reabri os olhos e mirei o mar com desgosto, embora sem ressentimentos – afinal ele bloqueava-me o caminho, cortava-me a passagem. Ou seria que não?
Não tardaria a ser alcançado pelo meu hipotético perseguidor, se ele existisse realmente.
Espreitei uma vez mais por cima do meu ombro e desafiei-o:
– Talvez nos encontremos no tecto do mundo.
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| Friday, 11-Mar-2005 00:00 |
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Brilhante
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(ou a história do amor impossível entre um golfinho prateado e uma crosta de gelo)
Primeiro era a noite e a escuridão. Nela nos pressentimos, inicialmente, tacteando suavemente uma ancestral premonição.
Depois veio a madrugada, espreitando preguiçosamente. Encontrou-nos incrustados cada um no seu pedestal. A madrugada desviou pudicamente o olhar, e cedeu o seu lugar à manhã. A manhã trouxe no ventre o sol, derramando sobre nós a luz que nos fez brilhar acima de todas as coisas.
E eu perguntei:
- Para sempre?
E tu sorriste alegremente:
- Para sempre.
Desventura das desventuras, seria a mesma luz que nos fez brilhar acima de todas as coisas, que, indirectamente, com o calor do seu bafo, fatal como o destino, nos apartaria irreversivelmente.
Senti-me diluir e definhar lentamente, e perguntei:
- Para sempre?
E tu confirmaste tristemente:
- Para sempre.
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| Tuesday, 1-Mar-2005 00:00 |
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Novelo
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Sobe à montanha. Mas não te apresses. Toma o teu tempo. A lagoa aguarda-te, serenamente, lá em cima, onde o ar rareia ainda sem asfixiar.
A lagoa receber-te-à de braços abertos, de bom grado acolherá em seu seio o teu segredo – sem uma pergunta, sem uma palavra sequer.
Podes escolher o dia e a hora, mas nunca o momento certeiro.
Não desesperes, porém.
Respira fundo.
Sente o sol beijar a tua pele, assim como afaga uniformemente o gelo que se estende desde os teus pés até ao horizonte sem fim.
Sol-gelo: sê-lo, pois claro.
Respira fundo…
Não consegues?
Ah! Compreendo. Sabes que o nevoeiro te espreita. Tu sabes que o nevoeiro nunca te esqueceu. “Recordas-te de mim? Temos umas continhas a ajustar.”
Sabes que ele não desistirá enquanto não estiverem quites.
Um passo em falso não te fará tombar através do fino gelo, mas fechar-te-à irremediavelmente o caminho de regresso.
Conheces o caminho? E depois? Grande coisa, o nevoeiro conhece-te a ti. Ele nunca te esqueceu. Devias ter voltado para trás, como prometeste. Pensaste que ninguém te poderia julgar, depois de calada a promessa no teu peito? Pois, pois. Só que o nevoeiro ouviu-a. O nevoeiro escutou as tuas palavras. Escutou-as e ergueu um pouco do seu manto. Quis ver o que farias, assim que tornasses ao jipe. Quem sabe o que teria acontecido se tens voltado para trás? Encontrá-los–ias ainda com vida? Não estariam condenados de qualquer forma? Ele estava ferido, ela escolheu não o abandonar. Talvez hoje eles ainda estivessem vivos. Ou talvez tu estivesses morto também. Nunca o vais saber. Sabes apenas que o nevoeiro nunca te esqueceu. Reparaste como ele te acompanhou e seguiu atentamente ao longo dos últimos anos? Quantas vezes não o surpreendes-te a espreitar-te lá de cima, da montanha? Quantas vezes não te fechaste em casa ao senti-lo farejar à tua porta? Quantas vezes não amaldiçoaste o momento em que giraste o volante no caminho de regresso à aldeia ao invés de te embrenhares de volta ao nevoeiro?
Mas isso é passado. Agora sobe à montanha. Caminha junto à lagoa. Percorre todo o seu perímetro. Rodeia-a sem pressas.
Este momento é tão bom como qualquer outro. Não é nem mais, nem menos do que aquele outro momento, neste preciso instante tantos anos atrás.
Não sentes o bafo frio do destino a entrançar-se em volta de ti, a enrolar-se em redor de ti num abraço fatal?
Nevoeiro-gelo: novelo, ora aí está.
Não? Está bem. Ficamos assim …até à próxima.
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| Tuesday, 22-Feb-2005 00:00 |
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Frio
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Era apenas mais uma caminhada, como tantas outras que fizéramos naqueles dias. O tempo estava frio, mas o sol espreitava por entre as nuvens, banhando o meu caminho com a sua luz.
Penso que não era o último do grupo, mas também não engrossava o pelotão da frente. Estava a meio caminho, algures entre o ponto de partida e o ponto de chegada. Não conhecia o percurso, mas isso também não me preocupava. Sabia que me bastava seguir o trilho assinalado.
De repente as sombras tomam conta do mundo. Nuvens cada vez mais cinzentas galopam os céus acima da minha cabeça.
Sem que nada antes mo fizesse adivinhar, começam a cair os primeiros flocos de neve. Inicialmente sigo o meu caminho, maravilhado. Nunca vira nevar. Lembro-me de conhecer a neve aos 6 anos e de a reencontrar, em circunstâncias em tudo idênticas, aos 13 anos – levantara-me da cama e encontrara o mundo de todos os dias irreconhecivelmente branco. Mas nunca vira a neve a cair. Tomara-a nas mãos, mas não a vira precipitar-se dos céus.
Desta vez vejo-a a cair.
Desta vez observo como as deslumbrantes e encantadas formas dos flocos poisam nas minhas mãos, apenas para logo se derreterem e transformarem em simples gotas de água.
Ofereço o meu sorriso aos flocos de neve, que, ingratos, mal tocam o meu rosto, se metamorfoseiam em lágrimas do céu.
O que o que começara por ser uma inofensiva amostra de neve, ameaça agora tornar-se num terrível nevão.
Começo a sentir-me apreensivo.
Surprendentemente, a neve não molha. Não me sinto encharcado como sentiria se tivesse sido surpreendido por uma chuvada ao invés dum nevão. O que, assim como assim, é menos mau. Porém, o frio… o frio começa a tomar conta de mim. Poderia jurar que a circulação abranda nas minhas veias, como se o sangue me começasse lenta mas irreversivelmente a congelar.
Não parei de andar desde que a neve começou a cair, todavia não tornei a encontrar ninguém daqueles que seguiam à minha frente. Suspeito ter tomado o caminho errado na última bifurcação do caminho lá atrás, porém, sentir-me-ia idiota em regressar, se porventura viesse a concluir que era este o caminho correcto.
É melhor continuar, seguir em frente. Mas o frio… o frio…
O frio?
O frio aquece-me, inesperadamente, a memória, reateando o incêndio daquela que creio ser a mais antiga das minhas recordações.
Viajo uma vez mais no banco traseiro do carro dos meus pais. Não posso dizer com certeza a minha idade. Sei que tenho menos de três anos, pois estou sozinho no banco de trás. O meu irmão ainda não nasceu, portanto. Brinco com um carrinho azul. Já não me lembrava daquele carrinho… A sua lembrança apagara-se-me pura e simplesmente. Era o meu brinquedo preferido. Foi-o (sê-lo-à) até ao dia em que o segurei com a minha mão fora do vidro, para o fazer sentir a carícia do vento, acabando por o deixar caído numa estrada qualquer, atraiçoado pela minha voz que não foi capaz de pedir ao meu pai para parar o carro o carro de modo a que eu o recuperasse. Mas essa é uma outra história. Nesta noite, na noite em que o carrinho percorre em segurança o banco de trás do carro do meu pai, o céu está colorido de vermelho. Não compreendo porquê. O meu pai diz que é a luz do fogo cá em baixo lá em cima. A minha mãe abre a boca de surpresa.
O carro do meu pai segue caminho. Perde-se no nevoeiro branco que cerca as minhas recordações. O meu carrinho azul também, ainda e sempre pilotado pela minha mão.
Uma vez disseram-me que a maior parte das nossas recordações de infância não aconteceram verdadeiramente – sonhámo-las ou imaginámo-las.
Talvez aquele fogo nunca se tenha deflagrado efectivamente. Talvez o carrinho azul nunca tenha existido de verdade. Mas eu poderia jurar que ao dobrar esta última curva no caminho o vi surgir, silencioso, manobrado por uma mão infantilmente gigantesca cujo braço se perdia na negritude do céu.
– Obrigado amigo, eu conduzo o resto do caminho.
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| Monday, 14-Feb-2005 00:00 |
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O Coração de Pinóquio
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Pinochio's Heart
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Ainda bem que no final Pinóquio conseguiu vencer todas as adversidades e se tornou um menino de verdade, de carne e osso.
Já imaginaram o problema que não teria sido ele entrar na adolescência com um coração de madeira? Da primeira vez que se apaixonasse entraria em combustão espontânea – o coração incendiar-se-ia com a paixão, alastrando rápida e tragicamente a todo o corpo do rapaz de madeira.
Se mentisse um pouco a dizer que não, que não estava apaixonado, tudo o que conseguiria, seria arder um pouco mais pelo nariz inutilmente aumentado.
Mas tudo está bem quando acaba bem.
Que terá sucedido a Pinóquio adulto? Se era uma criança quando eu li o livro, então deve ser mais ou menos da minha idade…
Provavelmente, esteja onde estiver, Pinóquio sente inflamar-se o seu coração tão fugazmente humano como o meu e o teu.
Isto, porém, sem que os melhores conselhos do seu sábio amigo Grilo Falante o possam salvar desse incêndio que não lhe consome o corpo mas nem por isso deixa de lhe consumir a alma.
Quem sabe não considere hoje Pinóquio que talvez não tivesse sido pior nunca haver deixado de ser um simples boneco de madeira.
O que será pior? Deixar o coração arder lentamente no lume falsamente brando das paixões, ou vê-lo consumir-se como um rastilho fatal num fogacho fulminante?
Se Pinóquio pudesse voltar atrás, certamente optaria por recusar a bem aventurança de se tornar uma criança de verdade ofertada pela Fada de Cabelo Azul…
Este é pelo menos o meu vaticínio.
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| Saturday, 5-Feb-2005 00:00 |
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O Mapa do Tesouro
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Já perdi a conta às vezes que contei e recontei os passos. Gostava que ela estacionasse o carro exactamente no mesmo sítio onde eu parei em Agosto, naquela saudosa tarde em que viemos tomar um café à beira mar. Mas nessa altura era verão, estava tudo apinhado de carros cá em cima. Agora o parque está quase vazio. Ela nem sequer se deve lembrar onde é que o carro ficou exactamente. Não podia começar o mapa a partir do local onde saímos do carro nessa tarde. Não faz mal. Ela sabe que descemos pela escada de madeira. Quando ela receber o mapa vai saber que tem de descer novamente por essa mesma escada. Assim que pisar a areia, terá de contar 23 passos em direcção ao mar. Depois outros 47 passos para a esquerda, até chegar pertinho da rocha mais pequena. Finalmente avançará em direcção às rochas grandes, contando mais 32 passos. Aí está assinalado com um grande X vermelho o lugar onde está enterrado o tesouro. Não será preciso mais do que escavar superficialmente a areia para encontrar o pequeno baú cuja chave seguirá em anexo no envelope do mapa. Quando rodar a chave na fechadura, encontrará então o tesouro que guardo para ela no meu coração. Era impossível exprimi-lo doutra maneira que não através dum poema. Era o único modo de lhe dar forma, trazê-lo à luz do dia, acordá-lo para a vida. Espero que ela goste do poema… ele é um mapa para dentro de mim. Eu, pessoalmente, não consigo deixar de o achar um pouco ridículo. Mas, como dizia Fernando Pessoa, todas as cartas de amor são ridículas. A lógica deverá aplicar-se também aos poemas de amor, suponho eu. O que a ser verdade constituiria um trunfo a meu favor – quanto mais ridículo e absurdo o meu poema me parecer, melhor.
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| Friday, 4-Feb-2005 00:00 |
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Museu Universal da Música VII
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Viola de mão.
Reconstituição baseada num instrumento que se encontra no Museu da Música em Paris, atribuído a Belchior Dias, construtor português do Sec. XVI.
Construtor - Orlando Trindade (contacto: orlandotrindade@hotmail.com).
Desço…
Passo a passo, degrau a degrau, peça a peça.
Lentamente vou conquistando o meu cantinho de paz e serenidade.
Passo os dedos pela viola, evitando as cordas que arruinariam o momento… Talvez um dia ainda aprenda a tocar… mas o mais certo é não voltar a tentar.
A rosácea, qual vitral de templo gótico, transporta-me para dentro da casa da Música – tal como os antigos mosteiros e catedrais eram a casa de Deus.
Sinto-me pairar dentro do vazio dentro do instrumento, mágico até no seu silêncio.
A surdez do silêncio é a latente presença do divino.
Levitar dentro do vazio é a única forma de pisar condignamente terreno sagrado, não é?
A viola (templo) é o temporal, o palpável, o finito; o que está lá dentro (vazio) é o intemporal, o sagrado, o eterno.
Saio e torno a sair.
Tranco a porta atrás de mim.
Subo.
Escondo a chave em parte incerta, com a secreta e incontida esperança de me esquecer onde a guardei.
Eu sou o Coleccionador.
Até sempre.
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