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| Wednesday, 20-Apr-2005 00:00 |
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Miradouro
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“Esquecem-me as coisas.” Quem me dera a mim poder dizer “Esquecem-me as coisas.”
Mas não! Desgraçadamente, eu nunca me esqueço de nada. Os pormenores mais ridículos e insignificantes acotovelam-se furiosamente na superlotada nave central da minha memória.
Pagava o que fosse preciso para esquecer completamente 99% da minha vida.
Talvez assim pudesse começar tudo de novo.
Esta era uma boa paisagem para ilustrar um novo princípio.
Que bom seria que esta fosse a única imagem que eu guardasse na minha cabeça a partir de… a partir de… a partir de… AGORA!!!
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| Friday, 8-Apr-2005 00:00 |
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O caminho da sombra
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Reparei no outro dia que o sol e as sombras andam sempre desavindos. Desde então, não há dia em que não dê por mim impressionado com a forma como andam os dois, sol e sombras, de candeias às avessas.
Meu Deus, como parecem odiar-se! Que argumentos poderão explicar tamanha discórdia? Que secretas razões explicarão tal contenda? O que estará por detrás de tão mortal inimizade?
Se eu quiser olhar o sol olhos nos olhos, tenho de dar as costas à minha sombra. Por outro lado, se quiser encarar a minha sombra, tenho de voltar as costas ao sol. Nem eu posso estar de bem com ambos ao mesmo tempo. Nem eu os posso reconciliar. Estão definitiva e irreversivelmente de costas voltadas!
As sombras levantam-se apenas quando o sol se põe. Vão-se esticando de mansinho, espreguiçando-se num surdo movimento de conspiração, até tomarem completamente conta do mundo. Tudo é delas – tudo se torna elas! Ou devo dizer ela? Sim, que a certa altura as sombras fundem-se nelas próprias, tornando-se numa única e misteriosa entidade. Com o chegar da manhã, como que recorrendo a um ancestral mecanismo de defesa, aperfeiçoado ao longo de milhares de gerações, ela desunir-se-à, e as sombras esconder-se-ão no ventre da terra ou se não conseguirem fugir a tempo agarrar-se-ão aos meus ou aos teus pés, como quem se agarra desesperadamente à vida – onde, por volta do meio dia, quando o sol está mais a pique, mais imponente, mais mortífero, poderão esconder-se em segurança debaixo de mim ou de ti… à espera do entardecer, aguardando pacientemente a chegada da sua hora.
Isto é verdade tanto aqui em Portugal, na Papôa, como no Nepal, onde os membros de castas inferiores estão proibidos de atravessar a sombra de elemento da casta superior. Mas o que acontecerá durante a noite escura? O que fazer quando a sombra é tudo a nossos pés e em toda a volta? O que farão os elementos de casta inferior nepalesa quando a sombra os envolve completamente? Talvez seja o mais próximo que eles alguma vez tenham conhecido de liberdade…
O caminho da sombra.
Nem sempre escuridão rima com perdição.
Lembra-te disto da próxima vez que alguém te recomendar “Vai pela sombra”.
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| Monday, 4-Apr-2005 00:00 |
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Janelas africanas
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Janelas africanas ornamentando o interior duma casa portuguesa.
Janelas que convidam a ser abertas, para se escancararem de par em par para a savana ou a para a selva.
Cuidado! Não negligenciem as fechaduras! Temos leões, rinocerontes e jibóias do outro lado da parede.
Mas é bom ter um portal aberto para outros espaços, sobretudo quando vivemos paredes meias com a vontade de partir.
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| Saturday, 2-Apr-2005 00:00 |
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Deus já não mora aqui
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Os homens passam, os deuses ficam (pelo menos enquanto não atraiçoarem a memória dos homens); alguns templos perduram, outros tornam-se obsoletos.
É nessa altura que a velhinha casa de Deus fica de portas escancaradas para a ruína e para o desprezo da natureza.
Para sabermos que Deus habitava aqui, abençoou-se este espaço.
Que teve de se fazer para dizer que Ele abandonou estas paredes?
Alguém as terá amaldiçoado?
Ou será que, à semelhança dum velho corpo moribundo, a quem é ministrada a extrema-unção, também alguém desenganou esta velha igreja da sua existência terrestre?
Como saberemos nós que Deus já não mora aqui?
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| Thursday, 31-Mar-2005 00:00 |
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Amanheceres
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Lembro-me de ti, perfil recortado contra o entardecer, vozes caladas desde que os corpos haviam começado a falar uma língua que só eles entendiam. O mar enrolou-se-nos gentilmente nos ouvidos, adiando a partida ainda uma e outra vez.
E fez-se noite. E a noite era fria por fora, mas quente por dentro. As texturas da escuridão pesavam sobre nossos ombros, vestindo-nos de negro – só as mãos e os dedos vêm nas trevas.
E depois a madrugada desenhou suavemente a claridade na linha do horizonte, espalhando o vírus da luz, que logo contaminou todo o céu acima de nós, apagando as estrelas uma a uma.
Foi nessa altura que nossas mãos escorregaram uma pela outra, enquanto as vozes acordavam do seu longo torpor, renascendo para ditar uma nova separação aos corpos que se desenlaçavam lentamente.
O que dissemos? Qualquer coisa a rimar com “adeus”.
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| Tuesday, 29-Mar-2005 00:00 |
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Passos
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Ele há alturas em que é preciso levar a cabo uma autêntica revolução na nossa vida. Não te parece? Pegar em nós e alterar radicalmente tudo o que seja passível de ser mudado sem que entretanto deixemos de ser nós. Mudar mas continuar a ser o que éramos-somos. Nunca te atacou essa vontade? Agarrar em ti e largar tudo. Abandonar casa, família e emprego. Partir para o desconhecido, partir para a aventura, partir para outra vida. Nunca te passou pela cabeça sair daqui para nunca mais voltar? Não? Pois olha que essa ideia tem vindo a ganhar consistência na minha cabeça. Primeiro não se tratava de mais do que uma mera sugestão ou insinuação nascida sabe-se lá de quê. Depois, com o tempo, foi-se tornando uma ideia que me assolava os pensamentos com cada vez maior insistência e frequência. Por fim ganhou foros de autêntica obsessão. Quando vou ao café, dou por mim a folhear ansiosamente a secção de empregos do jornal, à procura, à procura não sei muito bem do quê, à procura de algo que só vou descobrir o que é quando o vir escarrapachado nas páginas do jornal. Não sei exactamente o que espero encontrar: quem sabe não precisam de alguém como eu na Namíbia, no Alasca, na Nova Zelândia ou em qualquer outra parte do mundo que não aqui. Acredita-me – qualquer dia, olhas para o lado e reparas que eu não estou lá. Perguntarás a alguém (talvez a um amigo comum) por mim, se me tem visto, e replicar-te-ão “Ele abalou para o estrangeiro há duas semanas. Foi assim uma coisa um bocado repentina e inesperada.” E tu vais lembrar-te desta conversa e vais pensar… vais pensar… Vais pensar o quê?
São passos. E é bom caminhar.
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| Monday, 28-Mar-2005 00:00 |
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Aguarela
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Aguarela.
As cores competem entre si pela papel de maior espectacularidade.
As horas passam e a água seca no fundo da imagem cristalizada na minha memória - fragmento de água nela.
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| Friday, 25-Mar-2005 00:00 |
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Escondido nas sombras da noite #5
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Melhor do que encontrar um pórtico aberto, é um pórtico sem qualquer porta ou portão – através dele poderão fluir livremente a noite e as paixões.
E assim, é chegada a hora de recolher máquina fotográfica e tripé para o refúgio do lar, a salvo da noite e das suas sombras.
O sono convida à materialização dos sonhos, escondida no ventre duma outra escuridão, na genialidade da sua nua, crua, sub-reptícia realidade.
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| Thursday, 24-Mar-2005 00:00 |
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Escondido nas sombras da noite #4
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As sombras da noite alastram sinistra e imperceptivelmente pelas paredes.
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| Wednesday, 23-Mar-2005 00:00 |
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Escondido nas sombras da noite #3
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A certa altura, de tanto olhar para as fotos acabadas de tirar, de tanto andar de cá para lá, à espera que se esgotem os seis minutos que estimei como o tempo hipoteticamente correcto para a exposição, realidade e representação fundem-se num único plano, e eu começo a ver o mundo à minha volta exactamente tal como o observo no ecran da máquina fotográfica.
As constelações esborratam-se-me na vista, desenhando um mapa celeste que é um portão fechado para o sonho e a imaginação.
O mundo torna-se uma cadeia de tons lilases, dourados e roxos, onde as paredes são os limites até onde alcançam os meus olhos.
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