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Dizem que uma imagem vale por mil palavras... Mas que mil palavras poderiam ser essas? E assim tornei-me um caçador de palavras.
By: A M Catarino

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Thursday, 21-Oct-2004 00:00 Email | Share | | Bookmark
A Sombra Branca

 
E inadvertidamente ocorreu-me a mais singular das ideias: as nuvens são uma sombra branca de tudo o que existe à face do planeta.

Assim represente a sombra negra, presa aos nossos pés pela força da gravidade, o pior de todas as coisas, assim representará, livre lá nas alturas, a sombra branca o melhor de tudo – pairando, sem grilhões de qualquer espécie às impurezas da terra.

Qual destas duas sombras será a verdade das coisas, dos objectos, de nós?

A verdade somos nós – o que estamos no meio, balançando entre as trevas a nossos pés e a alvura muito acima de nossas cabeças.

Somos disputados pela escuridão e pela luz, hesitando entre a terra e o céu, entre o inferno e o paraíso: qual ganhará no fim?

A noite é a ancestral trégua desse conflito primordial.

A partir de hoje vou prestar redobrada atenção aos céus – mal posso esperar pelo momento em que reconheça bem lá em cima a minha sombra branca … resplandecendo aonde o ar custa mais a respirar, mas onde a luz é mais abundante…


Saturday, 2-Oct-2004 00:00 Email | Share | | Bookmark
ANFITEATRO

 
Aqui sinto-me verdadeiramente pequeno…
Talvez nunca tenhas abandonado o patamar inferior.
Este é o grande anfiteatro universal.
Ou a grande arena cósmica.
Sinto-me como se pisasse o palco das emoções humanas…
E que emoções são essas?
Sei lá… euforia, tristeza, paixão, ódio… tantas…
Tantas, mas tão poucas.
Pouco é não conhecer a voz do nosso coração.
O teu coração traiu-te sempre que teve oportunidade.
Porque me odeias?
Eu não te odeio.
Desprezas-me?
Nada tenho contra ti.
Então porque me tentas?
Seria sórdido da minha parte não o fazer.
Corrompes-me a alma…
O horror esconde-se na paz e na serenidade.
Eu não escolhi a tua companhia.
Eu não sei o que é escolher.
Despedaças-me.
Não me permitirei ao luxo da compaixão.
Partirás um dia?
Se a minha missão estiver cumprida.
Qual é a tua missão?
Está escrita a fogo no fundo da tua mente.
Desconheço essas palavras.
Olha para a tua vida e descobre-as nas entrelinhas.
Odeio-te.
Odeias-te a ti próprio.
Cala-te.
Só tu me podes calar.
Cala-te!
Só tu me podes calar.


Friday, 20-Aug-2004 00:00 Email | Share | | Bookmark
INTRODUÇÃO À TRIGONOMETRIA I

Abatido
Por vezes os pés levam-me de volta ao barco.
Sinto-me como ele – abatido.
Quem te viu e quem te vê…
Quem abate um barco como este devia abater também o seu mestre.
Quem me viu e quem me vê…

A minha vida resume-se actualmente a procurar em quem deitar as culpas.

Enquanto tive o barco consegui sempre orientar a minha vida, apesar dum ou outro pequeno acidente de percurso… O barco era o meu ganha-pão. Quando recebi o dinheiro da indemnização do barco… Bem, recebi-o, gastei-o e fiquei absolutamente impossibilitado de voltar a ganhar dinheiro.

De quem será realmente a culpa? Do governo? Da união europeia? Dela?

Os ratos são sempre os primeiros a abandonar o navio – e a verdade é que mal as coisas apertaram ela se pôs ao fresco.
E aproveitou e levou o meu filho com ela.
Pelo menos levou-o para longe do mar, para o interior.
O mar destruiu todos oshomens da minha familia - matou o meu pai, o meu avô, o meu bisavô e transformou-me no destroço que eu sou hoje.
É bom saber que ao menos o meu filho terá a oportnidade de crescer longe do mar...
E a coisa mais difícil é mesmo falar com o puto ao telefone.
Ter de dizer “O papá gosta muito de ti.”, sabendo que ele não acredita – sabendo que ele sabe que eu próprio não acredito…

Se calhar a culpa é mesmo minha… Quando batemos no fundo não adianta continuar a usar as desculpas de sempre.

Por outro lado, se eu continuar a beber a este ritmo, pode ser que não viva muito mais tempo – o que resolvia todos os meus problemas duma vez por todas.

Às vezes acordo a meio da noite com uma sede terrível. Arrasto-me até à primeira garrafa que encontro e trago-a para a cama.
Imagino o álcool a boiar no meu estômago e o barco a navegar às cegas dentro de mim, sem estrelas por que se guiar e com os instrumentos de navegação todos mortos.
Imagino-me dentro da cabine, manobrando desesperadamente.
Este é o meu barco… ou nos salvamos os dois ou morremos os dois.
Mais cedo ou mais tarde o barco há-de chocar com a parede interior das minhas entranhas, afundando-se sem esperança – arrastando-me gloriosamente consigo para a eternidade…


Thursday, 19-Aug-2004 00:00 Email | Share | | Bookmark
INTRODUÇÃO À TRIGONOMETRIA II

Cinzento
Em breve será domingo, em breve o meu pai virá buscar-me e talvez me leve a pescar com ele.
Já não vamos pescar no barco, como quando eu era pequeno, mas no molhe norte, com as canas e os anzóis.
Se calhar até podemos apanhar umas minhocas aqui ao pé da casa nova. Sabe-se lá que tipo de peixe é que elas conseguiam atrair…
Tenho saudades do meu pai. Tenho saudades do mar...

Será que ele vem no próximo domingo?

Acho que, apesar do barco estar agora a apodrecer em terra firme (como ele diz de tempos a tempos), o meu pai continua a navegar pelos oceanos de mágoas e frustrações de sempre.
É por isso que às vezes ele não aparece ao domingo – está lá longe, em cinzentos mares, onde os telemóveis não trabalham e um pescador é aquilo que arranca às profundezas do mar.

Será que o meu pai vem no próximo domingo?

Há tanta coisa nova que eu gostava de lhe contar… e dizê-las ao telefone não é a mesma coisa…

A lagoa ao pé da minha casa nova tem um poço no meio.

Há dias tive um sonho. Sonhei que tinha ido buscar água ao poço no meio da lagoa. Caminhei sobre as águas e espreitei lá para dentro. Estava escuro demais para ver aonde se situava o nível da água. Lancei o balde e ouvi-o bater com estrondo no fundo – estava seco.
Então voltei para casa, entrei no meu quarto, meti-me entre os lençóis e adormeci novamente.

De manhã estava constipado.

Gostava de contar esta história ao meu pai.

Será que ele vem no próximo domingo?


Wednesday, 18-Aug-2004 00:00 Email | Share | | Bookmark
INTRODUÇÃO À TRIGONOMETRIA III

Seara Nova
O emprego é novo, a casa é nova, a vida é nova; só eu continuo a ser a mesma de sempre – com o peso acrescido do miúdo.

É estranho viver longe do mar pela primeira vez em toda a minha vida, mas há uma lagoa linda ao pé de casa.
Não é a mesma coisa, o barulho não é o mesmo – hei-de acabar por me habituar à suavidade do coaxar das rãs, e esquecer a fúria das ondas em noites de tempestade.

No outro dia, fui dar um passeio ao fim da tarde. Aproveitei que o miúdo ainda não tinha voltado da excursão da escola e saí por esses campos fora.
Não foi preciso dar muitos passos até encontrar um campo semeado com milho.
Aquela imagem fez um clique qualquer dentro de mim…
Recordou-me das férias que passei no campo em casa dum tio da minha mãe, tinha para aí uns dez anos.
Foram as melhores férias da minha vida.
No Inverno seguinte a minha mãe morreu e a minha vida nunca mais foi a mesma.
Só mudou, para pior, anos mais tarde, quando casei e saí de casa de meu pai.

Mas isso fora muito tempo depois. Agora, tal como se tivesse dez anos outra vez, crescia dentro de mim uma imensa paz e harmonia.
Deitei-me no meio daquela seara nova, pulsante de vida e criação.
Por um momento acreditei verdadeiramente ter dez anos outra vez.
Sentia-me bem. E então veio o medo – o medo de sempre.
Não sabia se temia ser surpreendida pelo meu pai, pelo meu marido ou pelo meu filho, mas o certo é que me levantei a correr para casa, trancando a porta trás de mim.

À noite, em casa, deitada na solidão da minha cama, acordei sobressaltada… esta memória era de hoje ou de há vinte anos atrás?

Que idade é que eu tenho?

Dez anos? Trinta anos? Sessenta anos?

Ouvi alguém dizer com uma voz inacreditavelmente sumida:

- Mãe?

Só não sei se fui eu ou o meu filho.



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